Uma semana depois da tragédia do dia 11/09, minha esposa, Mary Lou, e eu estávamos viajando para visitar a família em Pittsburgh. No Aeroporto Internacional de Orlando, nós ficamos em uma longa fila de verificação de segurança. Quando chegamos no agente, ele nos pediu nossa identificação. Entreguei a ele minha carteira de motorista mas, para minha surpresa, Mary Lou falou: “Eu achei que não precisaria da minha Identidade. Decidi deixá-la em casa”. Eu perdi a cabeça. “Você decidiu deixar sua Identidade em casa?”, eu gritei. “Eu não acredito nisso! Nós estamos no aeroporto, em um momento que estão procurando por terroristas, e você, deliberadamente, deixou sua Identidade em casa?”.

Eu continuei meu discurso, explodindo em ira. Algumas pessoas perto de mim riram do meu comportamento ridículo. Outras se encolheram de medo. É uma coisa boa ninguém ter gravado um vídeo daquela cena – eu iria viralizar imediatamente. Você acabou de ler minha confissão sobre minha pior experiência de explosão de ira – um testemunho de ira como paixão para o mal. Você talvez tenha se identificado com esse meu comportamento vergonhoso, já que, a maioria de nós, uma vez ou outra, perdemos o controle de nossa ira.

O Dom da ira

Mas nós não devemos chegar à conclusão de que a ira é sempre ruim. Frequentemente isso pode se tornar um problema para nós, mas a ira é parte normal da natureza humana, assim como o toque, a visão ou o desejo. Nós recebemos isso como um presente dado por Deus com o objetivo de nos ajudar a passar pelas situações desafiadoras. Considere o exemplo de Mike, um estudante de uma faculdade estadual, um cristão recém-convertido com uma história complicada de ira.  

Em um semestre, ele estava matriculado em uma aula de antropologia e logo descobriu que seu professor tinha prazer em desmascarar a fé dos estudantes religiosos. Primeiro, Mike se agitou em ira, mas a manteve sob controle. Então um dia ele se cansou da zombaria de seu professor. Ele explodiu e gritou suas objeções para o deleite tanto do professor quanto de seus companheiros estudantes. Depois de refletir acerca de seu comportamento ruim, Mike resolveu usar sua ira para o bem. Ele decidiu que, quando o professor zombasse dele, ele iria canalizar sua ira em vigor. Disse para os outros estudantes que não iria mais defender sua fé na sala de aula. E, se alguém quisesse conversar sobre religião, ficaria feliz em conversar com eles na sala dos estudantes. Durante as próximas 12 semanas, o professor continuou a zombaria. E Mike continuou se irritando, mas transformou isso em vigor. A ira serviu a ele como paixão para o bem. 

A abordagem bíblica acerca da ira

A Escritura nos ensina uma abordagem tripla que nos mostra como podemos expressar nossa ira e usá-la para o bem:

  • Esteja bravo;
  • Expresse a ira de forma controlada;
  • Substitua as reações ruins de ira por bons atos.

A Bíblia e a Igreja nos orientam a expressar nossa ira (Ef 4,26: “Irai-vos, mas não pequeis: não se ponha o sol sobre a vossa ira”). O melhor conselho prático nos diz que não devemos suprimi-la. Se suprimimos nossa ira, ela vagueia nosso interior, procurando uma brecha para sair. E ela vai encontrar essa brecha. Em diversas passagens, São Paulo nos adverte contra a ira (Ef 4,31: “Toda amargura e exaltação e cólera, e toda palavra pesada e injuriosa, assim como toda malícia, sejam afastadas de entre vós”; Cl 3,8: “Mas agora abandonai tudo isto: ira, exaltação, maldade, blasfêmia, conversa indecente”). Nós não podemos deixar nossa ira sair do controle ou deixar que ela nos controle. Obedecendo a essas restrições das escrituras, podemos usar a ira para bons propósitos ou para se opor ao mal.

A Escritura também nos mostra como substituir as reações ruins por bons comportamentos. Em sua carta aos colossenses, Paulo nos mostra como o Senhor lida com emoções como a ira. Ele diz que o Espírito Santo nos mudou para que abandonássemos nossa velha natureza e puséssemos uma nova que “está sendo renovada, para o conhecimento, à imagem do seu criador” (Cl 3, 10). Nesse processo transformativo, nós podemos substituir comportamentos pecaminosos, incluindo a ira, com boas condutas como a paciência e o autocontrole. Paulo chama essas boas condutas de frutos do Espírito. Note que a Escritura não lida muito com a explosão de ira. Ela foca nas nossas reações diante da ira e nos conduz a trocá-las para boas condutas. Nós fazemos isso canalizando nossa ira em um fruto do Espírito, como a paciência, assim como Mike fez quando afunilou sua ira em vigor.

Uma paixão para o bem

Aplicando essa abordagem bíblica, nossa ira como uma paixão para o bem é ativada de três maneiras:

  • A ira pode nos fazer santos;
  • A ira pode nos motivar a lutar por justiça;
  • A ira pode alimentar nosso zelo pela evangelização.

A ira pode nos fazer santos. Todos os papas, desde o Vaticano II, declararam que nós temos um chamado universal à santidade. Traduzido, isso significa que devemos ter como objetivo nos tornarmos santos. Nem todos os santos em uma lista de candidatos serão canonizados, mas os cristãos que vivem para agradar ao Senhor todos os dias. Como nós nos tornamos santos? Quando a irmã de São Tomás de Aquino o fez essa pergunta, ele respondeu “Vá!”. Nós podemos decidir em virar santos e Deus vai fazer que isso aconteça. Os santos nos contam quando decidiram: Teresa de Lisieux, aos 3 anos, Luís de Gonzaga, aos 7 anos, e Francisco de Assis aos 19. E a ira pode trazer uma grande contribuição para nossa santidade. Nós já vimos como isso funciona. Quando canalizamos nossa ira em paciência, bondade e misericórdia, estamos nos tornando como Cristo. Esses comportamentos são os traços de caráter do próprio Jesus. Para usar a imagem de C.S. Lewis, a ira nos ajudar a nos tornar “pequenos Cristos”.

A ira pode nos motivar a lutar por justiça. O Rev. Martin Luther King JR. moldou para nós o poder da ira para nos ajudar a consertar as coisas. Rev. King disse que a força da ira o guiou para lutar pela justiça racial abnegadamente. Uma experiência como adolescente desencadeou sua ira saudável e duradoura. Uma professora levou Martin, quando tinha 14 anos, para um concurso de discurso em uma cidade um pouco distante de Atlanta. Ele ganhou a competição (o que mais você esperaria?). Estando exaustos, a professora e Martin embarcaram em um ônibus para a longa viagem para casa e descansaram em seus assentos. Mas quando uma turma de pessoas brancas embarcaram no ônibus, o motorista, de uma forma bem desagradável, ordenou que eles se levantassem de seus lugares. Martin ferveu em ira. Ele recusou a se mover até que sua professora o convenceu, dizendo que precisavam obedecer à lei. Mais tarde, Rev. King disse que nunca mais sentiu tanta ira como sentiu naquela noite. A ira continuou com ele, dando suporte a todo o seu serviço nos movimentos de direitos civis. 

Podemos permitir que nossa ira pela injustiça atue em nós da mesma maneira. A ira pode nos guiar a trabalhar por questões pró-vida, como a oposição ao aborto e à eutanásia. E pode nos conduzir a implementar as obras de misericórdia no cuidado com os sem-teto, famintos, presos e outras pessoas marginalizadas. Pode alimentar nosso zelo pela evangelização assim como alimentou a paixão do Rev. King pela justiça racial. Todos os cristãos batizados compartilham a missão da Igreja de trazer todos os homens para um relacionamento com Cristo e a Igreja. Nós temos a obrigação de evangelizar. Não é um extra opcional. A ira pode nos ajudar a recrutar pessoas e trazê-las para o corpo de Cristo. Não que devamos expressar ira àqueles que estamos evangelizando. Nós devemos nos aproximar deles com simpatia e encorajamento. Devemos direcionar nossa ira contra essas visões de mundo que afastam as pessoas de Deus e da Igreja.

Um dia antes de ser eleito papa, o Cardeal Joseph Ratzinger disse em uma homilia, “Nós estamos construindo uma ditadura do relativismo que não reconhece nada como definitivo e cujo objetivo final consiste apenas no próprio ego e desejos”. Relativismo e suas associações – secularismo e materialismo – têm persuadido muitas pessoas de que elas podem definir suas próprias verdades. Eles chegaram a acreditar que não precisam de autoridade, incluindo a Igreja e o próprio Deus, para os dizer no que acreditar e o que fazer. Devemos ficar bem e com ira dessas visões que estão destruindo vidas, e devemos aprender formas e razões para refutá-los.

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Autor: Bert Ghezzi

Bert Ghezzi é um orador popular e autor de muitos livros. Seu livro mais recente é O cristão irritado: uma estratégia baseada na Bíblia para cuidar e disciplinar uma emoção valiosa, publicado pela Paraclete Press.

Fonte: Catholic Digest 

Traduzido por Guilherme Guimarães de Miranda – Membro da Rede de Missão YOUCAT BRASIL, servindo no Núcleo de Tradução e no Núcleo de Música.

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