Um amigo meu recentemente me perguntou se eu tinha um artigo de um blog para enviar a ele sobre porque somente homens podem ser padres. Já falei disso em artigos anteriores, mas percebi que nunca dediquei um artigo especificamente a essa questão, então aqui vai.

Sem dúvidas, as diferenças entre homens e mulheres foram exageradas no passado — tipicamente a favor dos homens e em desvantagem para as mulheres. As revoluções sexual e feminista do século 20 estavam certas em desafiar certos papéis limitados convencionalmente a um ou outro sexo. Porém, agora fomos de um desequilíbrio a outro: de querer exagerar as diferenças entre homens e mulheres, a querer eliminá-las.

Limitar a ordenação sacerdotal aos homens não faz nenhum sentido… a menos que… a menos que o sacerdócio expresse inerentemente aquilo que apenas os homens podem fazer. As mulheres certamente podem fazer a maioria das coisas que os homens fazem. Os homens certamente podem fazer a maioria das coisas que as mulheres fazem. Mas há algo que somente homens podem fazer (porque são homens) e somente mulheres podem fazer (porque são mulheres) e devem fazer isso juntos para que sejam capazes de cumpri-las.

Você conhece essa música de Mister Rogers?

Só meninos podem ser papais

Só meninas podem ser mamães

Todo mundo é único, todo mundo está bem

Seu corpo é único, o meu também

A resposta à pergunta “Por que as mulheres não podem ser ordenadas sacerdotes?” reside nessa simples observação de Fred Rogers. O sacerdócio não é uma escolha profissional. Não é a mesma coisa de uma mulher dizer “eu posso ser médica, ou advogada, ou política”. Não, o sacerdócio é uma paternidade espiritual. E por conta da profunda conexão entre matéria e espírito, para ser capaz de ser um pai pelo espírito, é necessário ser capaz de ser um pai pela carne.

A diferença sexual e o chamado à paternidade e à maternidade inerentes a ele é o sinal primordial do mistério divino no mundo criado. Eu revelo seu significado e, em seguida, concluo com uma reflexão sobre o significado da ordenação sacerdotal no seguinte trecho do livro Teologia do Corpo para Iniciantes:

A analogia esponsal

A Sagrada Escritura usa muitas imagens para nos ajudar a entender o amor de Deus. Cada uma tem seu lugar de valor. Mas, como São João Paulo II escreveu, o dom do corpo de Cristo na cruz “ressalta de modo definitivo o sentido esponsal do amor de Deus” (MD 26). De fato, do princípio ao fim, nos mistérios da nossa criação, queda e redenção, a Bíblia conta uma história nupcial ou conjugal.

Ela começa em Gênesis, com o matrimônio do primeiro homem e da primeira mulher, e termina no Apocalipse, com o matrimônio de Cristo com a Igreja. Exatamente no meio da Bíblia, nós encontramos o poema erótico do Cântico dos Cânticos. Estes extremos da Bíblia e esta peça central nos dão a chave para a leitura de toda a história bíblica. Na verdade, nós podemos resumir toda a Sagrada Escritura com cinco palavras simples, porém estarrecedoras: Deus quer Se casar conosco.

“Como um jovem desposa uma jovem,

aquele que te tiver construído te desposará;

e como a recém-casada faz a alegria de seu marido,

tu farás a alegria de teu Deus“ (Is 62, 5)

“Teus seios se formaram, veio-te o pelo.

Mas estavas nua, inteiramente nua.

Passando junto de ti, verifiquei que já havia chegado o teu tempo,

o tempo dos amores. Estendi sobre o ti o pano do meu manto, cobri tua nudez

depois fiz contigo uma aliança ligando-me a ti pelo juramento (…) 

e tu me pertenceste” (Ez 16, 7-8)

“Desposar-te-ei para sempre,

desposar-te-ei conforme a justiça e o direito,

com benevolência e ternura.

Desposar-te-ei com fidelidade,

e conhecerás o Senhor” (Os 2, 21-22).

Deus convida cada um de nós, de um modo único e irrepetível, a uma intimidade inimaginável com Ele, semelhante à intimidade dos esposos em uma só carne. De fato, como observa o Papa Francisco, “no original hebraico, o verbo ‘unir-se’ (…) é utilizada para descrever a união com Deus (…): ‘A ti está ligada a minha alma’ (Sl 63, 8)” (AL 13). Devido à suprema bem-aventurança da união com Deus, “um amor em que falta tanto o prazer quanto a paixão é insuficiente para simbolizar a união do coração humano com Deus: ‘Todos os místicos afirmaram que o amor sobrenatural e o amor celeste encontram os símbolos que procuram no amor matrimonial” (AL 142).

Embora possa ser que aqui precisemos trabalhar algum desconforto ou medo para recuperar a verdadeira sacralidade, a verdadeira santidade do imaginário, a “escandalosa” verdade é que a Sagrada Escritura descreve “a paixão de Deus por seu povo com arrojadas imagens eróticas”, como diz o Papa Bento XVI (DC 9). Em outro lugar ele declarou: “O eros faz parte do próprio Coração de Deus: o Todo-Poderoso espera o ‘sim’ de suas criaturas como um jovem noivo espora o de sua noiva” (Mensagem da Quaresma, 2007).

Provavelmente, nós estamos mais familiarizados (e mais confortáveis) com a descrição do amor de Deus como ágape — a palavra grega para o amor sacrificial, de doação de si. Ainda, o amor de Deus “pode certamente ser chamado de eros”, afirma Bento XVI. Em Cristo, o eros é “enobrecido de forma suprema… tão purificado a ponto de tornar-se um com o ágape”. Assim, a Bíblia não tem escrúpulos ao empregar o poema erótico do Cântico dos Cânticos como uma descrição da “relação de Deus com o homem e a relação do homem com Deus”. Deste modo, como conclui Bento XVI, o Cântico dos Cânticos torna-se não somente uma expressão da intimidade o amor conjugal, mas também uma expressão “da essência da fé bíblica: na verdade, existe uma unificação do ser humano com Deus o sonho originário do ser humano” (DC 10).

A essência da Fé Bíblica

Vamos tentar aprofundar: o Cântico dos Cânticos, esta celebração descarada do amor erótico, expressa a essência da fé bíblica. De que modo? A essência da fé bíblica é que Deus veio a nós na carne, não somente para perdoar nossos pecados (por estarrecedor que seja esse dom), mas também para tornar-se “uma só carne” conosco, de modo que pudéssemos ter parte em seu eterno intercâmbio de amor. No primeiro de seus muitos sermões sobre o Cântico dos Cânticos, São Bernardo de Claraval descreve com aptidão o matrimônio como “o sacramento da eterna união com Deus”. O Apocalipse chama esta união sem fim de “núpcias do Cordeiro” (Ap 19, 7).

Mas tem mais. Você se lembra daqueles versos concisos que aprendemos enquanto crianças: “Primeiro vem o amor, depois vem o matrimônio, depois vem o bebê no carrinho”?¹ Provavelmente não nos demos conta de que estávamos, na verdade, recitando uma profunda teologia: a teologia do corpo! Nossos corpos contam a história de que Deus nos ama, que deseja se casar conosco e que “concebamos” vida eterna em nós. “O que está acontecendo aqui?”, pergunta São Boaventura. Quando Deus nos enche com sua vida divina, isso “não é outra coisa senão o Pai Celeste, como uma semente divina, por assim dizer, impregnando a alma e tornando-a fecunda” (BFC).

Para os cristãos, a ideia da fecundação divina não é meramente uma metáfora. Representando todos nós, uma jovem mulher judia, chamada Maria, certa vez deu o seu “sim” à proposta de matrimônio de Deus com tal totalidade e fidelidade que ela literalmente concebeu vida eterna em seu ventre. Em um hino dedicado a ela, Santo Agostinho exclama: “A Palavra se torna unida à carne, ele faz sua aliança com a carne, e seu ventre é o leito sagrado no qual esta santa união da Palavra com a carne é consumada” (Sermão 291). A virgindade de Maria sempre foi entendida pela Igreja como o sinal de seu compromisso de matrimônio com Deus. Ela é a “esposa mística do amor eterno”, como diz um tradicional hino. Como tal, Maria preenche perfeitamente o caráter esponsal da vocação humana em relação a Deus (cf. CIC 505).

Por sua vez, Maria ilumina completamente a teologia do corpo de uma mulher. Nela, o corpo feminino literalmente tornou-se o lugar da habitação do Deus Altíssimo o céu na terra! Cada mulher participa de alguma forma desta dignidade e deste chamado incomparáveis. O corpo de cada mulher é um sinal do céu na terra. E, oh, que delícia é tua morada, Senhor dos exércitos! (cf. Sl 83, 2). Continue desdobrando este estarrecedor mistério, e não será difícil reconhecer que a teologia do corpo de um homem pode ser descrita como um chamado a adentrar os portões do céu, a render-se lá, a dar sua vida lá, derramando-se completamente. Deste modo, o homem é imagem da eterna efusão, da eterna doação de vida de Deus como Pai.

Poderíamos nós ao menos imaginar maior sacralidade, maior bondade e glória atribuídas à nossa masculinidade e feminilidade, à nossa sexualidade? Ó Deus, mostrai-nos quem nós realmente somos! Dai-nos olhos para ver mistério tão glorioso revelado através de nossos corpos e no chamado do homem da mulher a tornarem-se uma só carne!

Penetrando a essência do Mistério

Em meio a este desvendar da analogia bíblica do amor esponsal, é muito importante compreender os limites dentro dos quais estamos usando tal linguagem e imaginário. Analogias, claro, sempre indicam tanto uma similaridade quanto uma ainda mais substancial dissimilaridade. Sem reconhecer isso, existe um perigo real de inferir coisas demais acerca das realidades divinas, com base nas realidades humanas.

“É óbvio”, escreve São João Paulo II, “que a analogia (…) do amor esponsal não pode oferecer uma compreensão adequada e completa do (…) mistério divino”. O “mistério de Deus permanece transcendente no que diz respeito a esta analogia, bem como no que diz respeito a qualquer outra analogia”. Ao mesmo tempo, contudo, São João Paulo II sustenta que a analogia esponsal permite certa “penetração” na própria essência do mistério (cf. TdC 95b, 1). E nenhum autor bíblico alcança de modo mais profundo esta essência do que São Paulo em sua Carta aos Efésios.

Citando diretamente de Gênesis, São Paulo afirma: “Por isso, o homem deixará pai e mãe, e se unirá à sua mulher, e os dois constituirão uma só carne”. Então, ligando o matrimônio original com o matrimônio último, acrescenta: “Esse mistério é grande, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja” (Ef 5, 31-32).

Nós dificilmente podemos exagerar a importância desta passagem para São João Paulo II e toda a tradição teológica da Igreja. Ele a chama de “summa” (“somatório”) do ensinamento Cristão sobre quem é Deus e quem nós somos (cf. LF 19). Ele diz que essa passagem contém a “coroação” de todos os temas da Sagrada Escritura, e expressa a realidade “central” de toda a revelação divina (cf. TdC 87, 3). O mistério do qual se fala nesta passagem “é, de fato, ‘grande’ (…). É o que Deus (…) deseja, sobretudo, transmitir aos homens na Sua Palavra” (TdC 93, 2). Assim “pode-se dizer que [esta] passagem (…) ‘desvela de modo particular o homem ao homem e torna-lhe conhecida a sua altíssima vocação (GS 22)’” (TdC 87, 6).

Então, qual é esta “suprema vocação” que nós temos enquanto seres humanos, que Ef 5 torna clara? Gaguejando na busca por palavras para descrever o inefável, os místicos a chamam de “união esponsal” com Deus (cf. NMI 33). Cristo é o Novo Adão que deixou seu Pai no céu. Ele também deixou a casa de sua Mãe na terra. Para que? Para subir “ao leito nupcial da cruz”, como disse Santo Agostinho, unir-se à Igreja, simbolizada pela “mulher” ao pé da Cruz, e consumar a união para sempre. O Arcebispo Fulton Sheen elabora:

Agora nós sempre pensamos, e corretamente, em Cristo o Filho na cruz e mãe abaixo dele. Mas esta não é a imagem completa. Esta não é a compreensão mais profunda. Quem é nosso Senhor na Cruz? Ele é o novo Adão. Onde está a nova Eva? Aos pés da cruz (…) Se Eva tornou-se a mãe de todos os viventes na ordem natural, não deve esta mulher aos pés da cruz tornar-se outra mãe? [Como esta maternidade espiritual acontece?] (…) Como diz Santo Agostinho, e aqui o cito literalmente, “(…) Por assim dizer, o sangue e a água que jorraram do lado de Cristo era o fluido seminal”. E então nestas núpcias, “Mulher, eis aí o teu filho” – este é o início da Igreja. (FS, p. 60).

“Na Cruz manifesta-se o eros de Deus por nós”, proclama o Papa Bento XVI. “O eros é, na verdade, (…) aquela ‘força que não permite que o amante permaneça em si mesmo, mas o estimula a unir-se ao amado’. Qual ‘eros mais insensato’ (..) do que aquele que levou o Filho de Deus a unir-se a nós até o ponto de sofrer como próprias consequências dos nossos delitos?”, ele pergunta (Mensagem da Quaresma, 2007).

Quanto mais permitimos que os raios brilhantes do “eros insensato” de Cristo ilumine nossa visão, mais nós conhecemos, como observa o Catecismo, como “toda a vida Cristã traz a marca do amor esponsal de Cristo e da Igreja. Já o Batismo, entrada no Povo de Deus, é um mistério nupcial” (CIC 1617). Aqui, “‘a semente incorruptível’ do Verbo de Deus produz seu efeito vivificante” (CIC 1228). A “semente incorruptível” é dada por Cristo como Esposo e recebida pela Igreja como Esposa. E através destas gloriosas, virginais núpcias, a Igreja gera filhos e filhas “para uma vida nova e imortal” (CIC 507).

Ainda, por mais glorioso que seja o batismo, ele é apenas nossa entrada na vida cristã, não o seu fim. O batismo abre o caminho para o Sacramento dos Sacramentos, o mistério dos mistérios; o batismo “é, por assim dizer, o banho das núpcias que precede o banquete das núpcias, a Eucaristia” (CIC 1617).

O resumo da analogia esponsal

Na Eucaristia, “[Com Seu ’corpo’] Cristo está unido como esposo à esposa”, São João Paulo II nos diz. Como tal, a Eucaristia ilumina com o brilho sobrenatural “a relação entre o homem e a mulher, entre o que é ‘feminino’ e o que é ‘masculino’” (MD 26). É na Eucaristia que o significado da vida, do amor, do sexo, do gênero e do matrimônio é completamente revelado! De que modo?

Há uma tentação tão forte de desencarnar e, assim, neutralizar nossa fé, que com frequência nos esquecemos da profunda significância do fato de que há um homem na cruz e uma mulher aos pés da cruz. E não pode ser ao contrário. Na analogia esponsal, Deus é sempre o Esposo e a humanidade é sempre a Esposa. Por quê? Porque a humanidade é primeiramente receptiva ao amor de Deus: “Nisto consiste o amor: não em termos nós amado a Deus, mas em ter-nos Ele amado [primeiro]” (1Jo 4, 10). O corpo da mulher conta em primeiro lugar a história sobre oferecer aquele amor, sobre derramá-lo.

Quanto mais nós insistimos nesta história do amor divino, mais damo-nos conta do porquê somente um homem pode ser ordenado sacerdote: é o esposo que dá a semente ou insemina; é a esposa que recebe a semente dentro de si e concebe nova vida. É por isso que um homem se prepara para ser sacerdote no seminário, e uma vez ordenado, é chamado Padre. Uma mulher não pode ser ordenada sacerdote porque ela não está ordenada por Deus para ser um pai; ela está ordenada por Deus para ser uma mãe. É aqui que as diferenças sexuais importam no chamado à santa comunhão e à geração. Se uma mulher tentasse conceder a Eucaristia, a relação seria esposa-esposa. Não haveria a possibilidade de Santa Comunhão e não haveria possibilidade de gerar nova vida.

É claro, um mundo que insiste que duas mulheres podem se casar também irá insistir que uma mulher pode ser ordenada sacerdote, mas ambas as ideias vêm da mesma incapacidade de reconhecer o significado essencial da diferença sexual. Uma vez que a graça se constrói sobre a natureza, quando nós estamos confusos acerca da realidade natural, nós também estaremos confusos acerca da realidade sobrenatural: “Se vos tenho falado das coisas terrenas e não me credes”, pergunta Jesus, “como crereis se vos falar das celestiais?” (Jo 3, 12).

Quanto mais profundamente adentrarmos o “grande mistério” de Efésios 5, mais veremos como e por que a diferença sexual é tão importante para a Sagrada Comunhão Eucarística como o é para a sagrada comunhão do matrimônio. De fato, como ensina São João Paulo II, nós não podemos entender uma sem a outra. Talvez a seguinte história ilumine o que ele quer dizer. Eu nunca conheci meu sogro, ele faleceu quando minha esposa era criança, mas eu o admiro tremendamente por causa da intuição que ele teve quando esposo recém-casado. Na missa, no dia seguinte ao seu casamento, tendo consumado seu matrimônio na noite anterior, ele estava em prantos ao voltar ao banco após receber a Eucaristia. Quando sua recém-esposa perguntou, ele disse: “Pela primeira vez na minha vida eu entendi o significado daquelas palavras, ‘Isto é meu corpo dado por vós’”.

Não cometa um erro: quando toda a fumaça se esvai e todas as distorções são reordenadas, o significado e o propósito mais profundo da sexualidade humana é apontar para a Eucaristia, a “ceia das núpcias do Cordeiro” (Ap 19, 9). E é exatamente por isso que questões de sexo, gênero e matrimônio nos colocam no centro da “situação em que se combatem e se medem reciprocamente as forças do bem e do mal” (TdC 115, 2).

Pergunta: O mundo moderno está absolutamente correto em enfatizar a igual dignidade de homens e mulheres. Mas qual o perigo em equiparar igualdade com “semelhança”?

[¹N.T.: Tradução livre do canto popular infantil dos Estados Unidos “First comes love, then comes marriage, then comes the baby in the baby carriage”]

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Autor: Christopher West

Christopher West é um orgulhoso marido e pai de cinco filhos, além de ser o mais renomado professor e promotor da Teologia do Corpo de São João Paulo II. Autor de livros como Teologia do Corpo para Iniciantes e Enchei estes corações.

Fonte: The Cor Project

Traduzido por Gabriel Dias – Membro da Rede de Missão YOUCAT BRASIL, servindo no Núcleo de Tradução, além de atualmente participar do Grupo de Estudo DATING em Brasília – DF.

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