Quando pensamos sobre o milagre do Natal, vale a pena recordar o fato de que José não repudia imediatamente a sua prometida em casamento, apesar de ter descoberto que ela estava grávida. Ocorre um surpreendente desenrolar de acontecimentos. Quão dolorosamente desconcertante deve ter sido para ele, contudo, tentar lidar com uma concepção pela qual ele não tinha sido responsável. Ainda assim, mesmo que José tenha tido a possibilidade de adentrar em caminhos punitivos contra Maria, incluindo a morte por apedrejamento, ele se recusa a segui-los, optando por “divorciar-se dela em segredo”.

Nesse ponto, é claro, o anjo de Deus intervém, aconselhando José em sonho a não ter medo, nem a ceder às exigências da justiça, mas a acolher Maria em sua casa. Como? Porque a criança que ela espera é o Filho do Deus Vivo. A quem, após sua descida inimaginada no seio da Virgem mais pura, José iria conferir o nome santo, Jesus, que significa “Salvador”. Para que, tendo vindo em nosso meio para resgatar os últimos e os perdidos, tenha o direito de portar não apenas o Nome Sagrado, mas de expressar em seu próprio ser-para-os-outros a invocabilidade total do próprio Deus. Em outras palavras, é agora possível à humanidade chamar diretamente a Deus; não mais precisamos lidar com seus ministros de modo distante. Pois Deus está realmente entre nós. Emmanuel. Ele está em nosso meio.

Aqui, São José, provendo de modo tão generoso e heroico as necessidades de Maria, revela sua verdadeira grandeza, a qual vai muito além de um coração gentil e um espírito desapegado. Na verdade, trata-se da memória da promessa feita por Deus ao seu povo que ele, José, um verdadeiro Filho de Davi, quer ver realizada. Graças a tão viva e profunda memória, José irá abrir a porta da esperança ao mundo. Promessas de eternidade irão pairar sobre nós. A humanidade não ficará mais tateando na escuridão, nem rastejando no pó sob a tirania da morte. Deus terá verdadeiramente revelado a si mesmo como um de nós por causa da magnanimidade de um homem que abriu sua casa e seu coração ao Mistério. “Em sua grandeza”, declara o Papa Emérito Bento XVI, “Deus se permitiu tornar pequeno. Deus assumiu um rosto humano. Só esse Deus nos livra do medo do mundo e da ansiedade diante de uma vida sem sentido”.

Grande pequenino! Cujo nascimento a tudo abarca

Eleva a terra até o céu, pousa o céu sobre a terra.

Richard Crashaw

No entanto, quão grande deve ser a distância que Deus deve percorrer para descer à terra a fim de poder acampar em meio a nós. E as diferenças entre nós permanecem sendo infinitas e qualitativas, como recorda Kierkegaard. Deus – para usar da metafísica de Êxodo 3 – é aquele que é; e nós, juntamente com todas as coisas, somos aquilo que não é. Então Deus se lança sobre a história humana a fim de que tudo possa ser renovado. “Cristo não é ‘algo’ que passa ao lado, mas ‘algo que fica dentro’”, exclama Luigi Giussani. Percorrendo todas as vibrações variadas que tocam as nossas vidas, chegando até às próprias fontes do pensamento e da ação, o Verbo Encarnado chegou a abraçar tudo, ávido por assumir e redimir todo o escopo da existência humana.

O que Cristo quer de nós? Apenas a permissão para aprofundar nossa consciência a respeito de sua presença; e assim, tendo chamado nossa atenção, enriquecer nossas vidas com a força e a tangibilidade de sua contínua presença. “A consciência da presença do Mistério”, diz Giussani, “faz da nossa vida um constante fluxo de novidades. Com o reconhecimento dessa dramática presença, algo novo ‘começa’. Hoje, às onze horas, à uma hora, às seis, às dez; amanhã às três, às quatro. A qualquer momento, algo novo começa”.

O que poderia ser mais chamativo do que a perspectiva, infinita e maravilhosamente repetida, de começar sempre de novo? Mas isso não pode acontecer sem Cristo. Sem essa presença salvadora única que ele traz a cada momento que passa – o kairos da eternidade que irrompe pelas nuvens do mero kronos – não podemos começar nada. Certamente não [podemos começar] a grande aventura das criaturas feitas à imagem de Deus. “Não podemos sustentar o amor por nós próprios”, adverte Giussani, “a menos que Cristo seja uma presença, como uma mãe é uma presença para o seu filho”. A menos que Cristo seja uma presença agora – agora! – não posso amar a mim próprio agora e não posso amar a vocês agora”.

Então porque muitos, especialmente em nosso tempo, recusaram? Por que uma resistência tão grande em ter Deus em nosso meio? Na verdade, por que tanto desdém pela Santa Mãe de Deus, aquela que, como disse Hopkins, “Deu ao Deus infinito / Acolhido no ventre e no seio / Nascimento, leite, e todo o aconchego…”?

Quem pode ser responsável por uma rejeição tão maciça e metódica do acontecimento central da história humana? Um acontecimento, além do mais, de tal importância destrutiva que, a menos que seja verdade, dificilmente importa o que é verdade. As nossas vidas estão perdidas num vasto e terrível mar de niilismo. “Com o advento de Cristo”, escreve Romano Guardini, “o homem confrontou-se com uma decisão que o colocou num novo nível de existência… a existência do homem assumiu uma seriedade que a antiguidade clássica nunca conheceu… Essa seriedade não nasceu de uma maturidade humana; nasceu de um apelo que cada pessoa recebeu de Deus através de Cristo. Com este chamado, a pessoa abriu os seus olhos, foi despertada pela primeira vez na sua vida”. E, quem sabe? – talvez todo o mal-estar pós-moderno seja que já não desejemos mais abrir os olhos, preferindo a cegueira auto-infligida à fé em Cristo.

Em qualquer consideração final do motivo, parece-me que tal hostilidade equivale a um fracasso de magnanimidade, uma virtude cujo exercício o querido São José levou ao mais alto nível de perfeição. E o que é a magnanimidade? É o desejo de aspirar sempre, e em todo lugar, à grandeza, e assim desprezar e rejeitar tudo o que é medíocre. É abrir os nossos olhos para contemplar a Eterna Criança que entra no nosso meio, a fim de conceder a graça da salvação. O que poderia ser maior do que deixar-se abraçar pelos braços do Deus Encarnado?  E depois estender essa encarnação aos outros, a um mundo sedento de verdade que se pode realmente ver e cheirar, provar e tocar. “Sou apenas um homem”, diz o poeta Czeslaw Milosz. “Preciso de sinais visíveis”. / Canso-me facilmente, construindo a escadaria da abstração”.

Acaso poderia haver alguma vocação mais digna do que esta: que a presença de Cristo continue a viver em nossa própria vida? E então levar Cristo aos outros?

Oh, como se num berço minúsculo

Teu coração poderia tornar-se,

Deus voltaria à terra

Nascer como um pequeno menino.

Angelus Silesius

A resistência a um esforço tão enobrecedor foi o pecado determinante do chamado pensamento iluminista, que surgiu há mais de dois séculos. A Queda continua a infectar a cultura, especialmente na sua recusa operativa de admitir até a possibilidade de Deus se revelar como um ser humano. Mas será realmente verdade que Deus é de alguma forma intrinsecamente incapaz de se mostrar na história humana? De que serve ser Deus, se não se pode visitar o seu próprio pequeno mundo? Sim, mesmo que se tenha de suspender uma ou duas leis do universo para o conseguir. É a Eterna Criança por quem toda a criação anseia. Um mundo caído e sujo aguarda o renascimento. E das cinzas Cristo diz-nos que ele se levantará.

Feliz Natal a todos!

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Autor: Regis Martin

Regis Martin é professor de Teologia e associado ao Veritas Center for Ethics in Public Life na Universidade Franciscana de Steubenville. Ele fez doutorado em Sagrada Teologia na Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino, em Roma. É autor de diversos livros e reside em Steubenville, Ohio, com sua esposa e seus dez filhos.

Fonte: Crisis Magazine

Traduzido por Tiago Veronesi Giacone – Membro da Rede de Missão YOUCAT BRASIL, servindo no Núcleo de Tradução e no Núcleo de Formação, além de atualmente participante do Grupo de Estudo YOUFAMILY em Brasília – DF.

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