Eu tive a graça de poder viajar a Roma durante o Jubileu Extraordinário da Misericórdia. Minha amiga Elisa e eu decidimos embarcar em uma peregrinação durante a minha estadia, subindo a Scala Sancta (Escada Santa) e visitando cada uma das quatro portas santas em Roma. Apesar de empolgada pela experiência que nós íamos viver, eu não estava totalmente preparada para o impacto que isso teria em mim.

Eu estava espantada com a beleza da basílica papal de San Paolo Fuori le Mura quando nós chegamos. Uma das basílicas papais de Roma, foi casa para uma das portas santas que os peregrinos entraram para receber a indulgência associada ao Ano da Misericórdia. Algumas pessoas escolhiam entrar de joelhos enquanto rezavam pelas intenções do papa, enquanto outras entravam com uma oração silenciosa e tocavam a porta assim que passavam por ela. Eu optei por essa última, agradecendo a Deus pela experiência que eu começaria a ter com a minha amiga.  

A Scala Sancta e São João de Latrão

Na manhã seguinte, nós chegamos à Arquibasílica de São João de Latrão, onde várias peregrinações prescritas pelo Vaticano começam. A Scala Sancta é adjacente à construção. Como nem Elisa nem eu tínhamos experiência com o jeito “certo” de começar uma peregrinação, subir a Scala Sancta parecia um bom início.

Dizem que a Scala Sancta são os degraus da casa de Pôncio Pilatos que Jesus Cristo subiu várias vezes no dia que foi sentenciado à morte. Foram trazidas à Roma no ano 326 por Santa Helena, mãe do Constantino, o Grande. Os fiéis sobem os 28 degraus de joelhos, rezando uma devoção ou sua própria escolha de orações e intenções. Aqueles que o fizerem podem ser agraciados por uma indulgência parcial ou plenária, além da indulgência da peregrinação. É algo que deve ser uma experiência profundamente marcante e espiritual.

As escadas estavam cheias de peregrinos à nossa frente, Elisa e eu decidimos começar rezando uma Ave Maria e um Pai-Nosso. Nós rezamos para que o Espírito Santo nos guiasse durante todo o caminho. Nós nos olhamos, esperamos que o homem na nossa frente avançasse, e nos ajoelhamos para começar. 

A escada original é de mármore, mas eles a cobriram com madeira que foi suavemente modelada e curvada com o formato dos joelhos e pernas dos peregrinos que a subiram ao longo dos anos. A subida não foi fácil, mas o desconforto me ajudou a focar no que estava fazendo e refletir sobre a dor que Jesus Cristo passou por nós. Eu rezei o Pai-Nosso no momento que os meus joelhos tocaram na madeira.

Eu estava chorando no segundo degrau. Eu podia ouvir Elisa chorando ao meu lado também. Eu vi uma freira próxima, beijando o rosário e se curvando para beijar as escadas. Continuei recitando a Ave Maria e o Pai-Nosso, meditando em cada palavra, ao invés de só recitá-las. Eu especificamente pensei nas palavras “seja feita a Vossa vontade”, no Pai-Nosso. Com que frequência, na minha vida, eu escutei à vontade de Deus? Quantas vezes eu coloquei a Sua vontade de lado, focando, ao invés, nos meus pensamentos, vontades, desejos?

Eu comecei a pensar nos meus pecados. Foi um exame de consciência como nenhum outro. Todas as coisas que eu fiz de errado na minha vida fluíram para fora de mim, escorrendo no meu rosto junto com as minhas lágrimas. Eu reconheci que os pecados que eu estava refletindo eram aqueles que eu já tinha apresentado a Deus no sacramento da confissão. As cicatrizes desses pecados permaneceram. Como eu poderia deixar ser feita a vontade de Deus na minha vida quando eu estava presa ao passado? Ele já tinha me perdoado. Eu tive que perdoar a mim mesma. Eu percebi que uma indulgência é sobre isso.

Perdão e misericórdia só foram possíveis devido aos degraus que eu estava subindo. Para mim, era claro que aqueles degraus eram os degraus. Eu estava na presença de algo que Jesus Cristo, um homem real, tocou. Uma frase de C.S. Lewis veio à minha mente: “Ele não morreu pelos homens, mas por cada homem. Se cada um dos homens tivesse sido o único homem criado, Ele não teria feito menos.”

Ele fez isso por mim. Ele sabia cada erro que eu cometeria na vida e, mesmo assim, veio, sofreu e morreu. Ele fez tudo isso por mim.

Eu pensei sobre qual seria a vontade de Deus para mim quando eu deixasse esse lugar e terminasse essa experiência. Meus pensamentos rapidamente se voltaram ao meu marido e aos meus filhos. Eu vinha me esforçando bastante para fazer da igreja doméstica o foco da minha vida de uma forma que tive dificuldades no passado. Eu me lembrei de uma amiga que recentemente me disse que “Deus escolheu você para ser a mãe dela”, quando eu tive um dia particularmente difícil com uma das minhas filhas. Eu percebi que Deus me escolheu para todas elas. Ele me escolheu para ser a esposa do Marcus e mãe de três meninas incríveis. Ele me escolheu porque Ele me ama, acredita em mim e tem fé em mim. Eu sou amada por ele.

Eu ecoei as palavra de Maria: “Seja feito segundo a Vossa palavra” (Lucas 1,38). Eu subi o último degrau. Eu rezei um último Pai-Nosso. Fiz o sinal da cruz, beijei meus dedos e os toquei na madeira abaixo dos meus joelhos.

Elisa terminou alguns momentos antes de mim. Nos abraçamos e demos as mãos, nossos rostos imersos em lágrimas. Concordamos que essa experiência foi muito mais do que poderíamos imaginar. Essas escadas, um sinal tangível do amor e misericórdia de Deus, foram uma forma perfeita de começar uma peregrinação.

A basília de São João de Latrão estava cheia de visitantes em fila para passar pela segurança. Tanto eu quanto Elisa tivemos a graça de visitar a basílica antes, de modo que não tínhamos a intenção de ficar muito na basílica depois que passássemos pela Porta Santa. Assim como na basílica de São Paulo Fuori le Mura, a porta era elaborada e bela. Peregrinos passavam pela porta e tocavam o bronze, fazendo o sinal da cruz enquanto entravam na basílica. Nós seguimos o exemplo, ainda segurando a emoção que sentimos subindo a Scala Sancta.

Basílica de São Pedro

Nós seguimos o nosso caminho por Roma, passando pelo Coliseu e parando para almoçar e tomar um café enquanto andávamos até a praça São Pedro. Era um belo dia, e a alegria de nos reconectarmos uma com a outra significou que eram raros os momentos de silêncio até chegarmos à basílica papal de São Pedro, no Vaticano.

Eu e Elisa paramos por um momento para absorver os arredores antes de passarmos pela Porta Santa na basílica de São Pedro. Nosso dia estava sendo tão incrível e eu fiquei triste ao perceber que estava chegando ao fim. Algo no passar por aquela Porta Santa pareceu tão mais poderoso do que as demais portas. Eu hesitei ao entrar, ciente do meu desmerecimento, mas também ciente de que todos só mereceram por causa de Jesus Cristo. Eu respirei fundo, deixei minha mão tocar o metal da porta, fiz o sinal da cruz e entrei na igreja.

Elisa e eu nos abraçamos, as duas repletas de emoção. Vimos a Pietá, de Michelangelo, que Elisa disse ser a sua preferida. Nós continuamos a chorar e nos abraçamos novamente. Nós estávamos movidas pela escultura em si, o pensamento sobre a emoção que a Virgem deve ter sentido e o sacrifício de seu Filho. Apesar de termos subido à cúpula e celebrarmos com um drink na Piazza Navona, esse momento foi verdadeiramente o final do nosso dia.

Santa Maria Maior

Só faltava uma porta. No dia seguinte, nós fomos à basílica papal de Santa Maria Maior renovadas. Levou um tempo até eu tomar um ar e me preparar, conforme nós chegávamos. Eu fui consumida pela oração antes de entrarmos. 

“Pai, me ajude”, eu disse assim que toquei a última das Portas Santas de Roma.

“Sem choro”, o marido de Elisa comentou enquanto caminhava atrás de mim. Eu virei meus olhos lacrimejantes, mas percebi que ele estava certo. Não tinha necessidade de chorar. Eu senti minha fé mais completa do que nunca antes. Não tinha por que ficar triste. Eu não estava caminhando nessa jornada, ou em nenhuma outra, sozinha.

Eu estou apenas começando a processar a minha experiência em Roma. Eu pensei que o tempo deixaria a memória mais fraca, ou mesmo menos emotiva de contar, mas isso não aconteceu. O que aconteceu comigo em Roma, na nossa peregrinação, e enquanto subíamos a Scala Sancta, foi a experiência mais santa que eu tive. Foi uma história de amor – uma história sobre o amor de Deus por mim, firmado em compaixão, misericórdia e perdão.

Foi lindo.

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Autor: Kelly Herdrich

Fonte: Catholic Digest

Traduzido por Maria Augusta Viegas – Voluntária na Rede de Missão YOUCAT BRASIL, servindo no Núcleo de Tradução, além de atualmente participante do Grupo de Estudo São Judas Tadeu em Brasília – DF.

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