Oséculo que compreende os anos de 1917 a 2017 foi um encapsulamento do protoevangelho, quando Deus disse à serpente “porei inimizade entre ti e a mulher”. Esta guerra-de-100-anos significou uma fase mais nítida dessa inimizade. Ela começou em 1917 com a revelação de Nossa Senhora de Fátima e também (quais são as chances?) com a Revolução Russa do comunismo ateu. Nos últimos 100 anos, o corpo místico do anticristo tem, sem dúvida, tomado sua forma mais grotesca no materialismo ateísta, incorporado em governos socialistas e comunistas em todo o mundo. A serpente tornou-se o Leviatã. Em julho de 1917, antes da “Revolução de Outubro”, Maria fez um alerta em Fátima sobre a Rússia, dizendo “ela espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja”. O resto, como sabemos, é história.

Neste mês e ano do centésimo aniversário da Revolução de Outubro¹ [N.T.: artigo original foi publicado em outubro de 2017], é um bom momento para recordar o “flagelo satânico” (como Pio XI o chamou) desencadeado no mundo através dos artifícios perversos do socialismo e do comunismo. Isso é particularmente importante porque as elites culturais ocidentais e simpatizantes há muito buscam minimizar os males do marxismo, como o The New York Times parece ter feito recentemente, como o The Federalist descreveu, com “uma série de lembranças afetuosas e nostálgicas sobre os bons e velhos tempos do comunismo do século XX”. Talvez seja hora de revisar novamente toda a diversão do “século vermelho” com algumas leituras relaxantes para a hora de dormir como O Livro Negro do Comunismo ou o Arquipélago Gulag, de Soljenítsyn. Ou talvez apreciar algumas leituras inspiradoras sobre o “Grande Salto Adiante” e a “Revolução Cultural” de Mao? Eba! Ou, quem sabe, comer uma pipoca e assistir um entretenimento leve, como Os Gritos do Silêncio.

Alguns podem dizer, e o “socialismo do século XXI?” Bem, basta dar uma olhada rápida nas manchetes da Venezuela. Não faz muito tempo, a Venezuela era um país próspero e rico em petróleo, um milagre socialista! Agora, depois de 18 anos de marxismo Chávez-Maduro, é um inferno socialista. Muitos no país foram reduzidos à inanição (uma especialidade comunista) e passaram a roubar e comer animais de zoológico, aparentemente com uma predileção especial por porcos-do-mato e búfalos. Isso, infelizmente, não é uma aberração nos experimentos socialistas, mas a norma. Provavelmente é mais palatável, entretanto, do que a dieta à base de grama e casca de árvores no estado-prisão Coréia do Norte. Os fatos da história revelam que demagogos comunistas mataram até 140 milhões de pessoas (como o Dr. Paul Kengor cita em Manual Politicamente Incorreto do Comunismo) de Lenin a Stalin a Mao a Pol Pot a Kim Jong-un a Chávez a Che e Fidel. A lista continua. Afinal, Lenin disse que você tem que quebrar alguns ovos para fazer uma omelete; 140 milhões de ovos quebrados, isso sim é uma omelete grande!

A Igreja, por outro lado, nunca se deixou enganar pelos contras do socialismo e do comunismo. Desde o início, encíclica após encíclica ela criticava a falsa ideologia de Marx e Hegel. De fato, está no Catecismo: “A Igreja rejeitou as ideologias totalitárias e ateias, associadas, nos tempos modernos, ao «comunismo» ou ao «socialismo».” (CIC 2425) Enquanto o Catecismo é breve, as encíclicas papais são ricas em detalhes e abrangentes em condenação.

Em 1846, o Papa Pio IX promulgou a Qui Pluribus (Sobre Fé e Religião), combatendo vigorosamente Marx, que publicou O Manifesto Comunista em 1848. Pio IX escreveu sobre a “doutrina indizível do comunismo”, que é “uma doutrina mais oposta à própria lei natural. Pois se esta doutrina fosse aceita, a destruição completa das leis de todos, governo, propriedade e até mesmo da própria sociedade humana se seguiria.” Ele alertava sobre “as mais perversas criações de homens que, trajados por fora com peles de ovelha, por dentro não passam de lobos vorazes.”

Em 1878, o Papa Leão XIII escreveu sobre os males do socialismo em Quod Apostolici Muneris. Ele começou sua encíclica sobre “a praga mortal que está se infiltrando nas próprias fibras da sociedade humana e levando-a à beira da destruição.” Papa Leão então destacou que “aquela seita de homens que, sob nomes diversos e quase bárbaros, são chamados de socialistas, comunistas ou niilistas, e que, espalhados por todo o mundo, e unidos pelos laços mais estreitos em uma confederação perversa, não procuram mais o abrigo de reuniões secretas, mas, marchando aberta e corajosamente à luz do dia, esforçam-se para trazer à tona o que eles vêm planejando há muito tempo – a derrubada de toda a sociedade civil.”

A encíclica também advertia que os socialistas buscavam destruir o casamento e a família. Para os socialistas, não pode haver maior lealdade a Deus ou à família, mas apenas ao Estado todo-poderoso. O Papa Leão afirmou que “o fundamento desta sociedade repousa em primeiro lugar na união indissolúvel entre marido e esposa, de acordo com a necessidade da lei natural”. No entanto, as “doutrinas do socialismo se esforçam quase completamente para dissolver essa união”.

Treze anos depois, em 1891, o Papa Leão XIII publicou outra encíclica sobre o trabalho e capital e a classe operária em Rerum Novarum, texto fundamental para a doutrina social católica na era moderna. Leão escreveu: “Os Socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida…” Essa atitude, a Igreja declarou, “é sumamente injusta,” e “o remédio proposto está em oposição flagrante com a justiça, porque a propriedade particular e pessoal é, para o homem, de direito natural.”

O socialismo é construído sobre a noção de cobiça, uma violação do nono e décimo mandamentos. A Rerum Novarum apontou isso: “A autoridade das leis divinas vem pôr-lhe o seu selo, proibindo, sob perla gravíssima, até mesmo o desejo do que pertence aos outros.” O socialismo também é construído sobre a falsa ideia da luta de classes. Aqui também, o Papa Leão rejeitou seu erro: “O erro capital na questão presente é crer que as duas classes são inimigas natas uma da outra, como se a natureza tivesse armado os ricos e os pobres para se combaterem mutuamente num duelo obstinado. Isto é uma aberração tal, que é necessário colocar a verdade numa doutrina contrariamente oposta…”

Como em encíclicas anteriores, o Papa Leão defendeu novamente as instituições da família e do casamento contra os ataques do socialismo: “a família… tem certos direitos e certos deveres absolutamente independentes do Estado.” “Querer, pois, que o poder civil invada arbitrariamente o santuário da família, é um erro grave e funesto.”

Em 1931, o Papa Pio XI lançou a Quadragesimo Anno, sobre o 40º aniversário da Rerum Novarum, que é chamada a “Carta Magna” da doutrina social católica. Papa Pio afirmou sem rodeios: “…declaramos: O socialismo quer se considere como doutrina, quer como facto histórico, ou como ação… é completamente avesso à verdade cristã.” Pio foi além, afirmando: “E se este erro, como todos os mais, encerra algo de verdade, o que os Sumos Pontífices nunca negaram, funda-se contudo numa própria concepção da sociedade humana, diametralmente oposta à verdadeira doutrina católica. Socialismo religioso, socialismo católico são termos contraditórios : ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista.”

E o socialismo “leve”? Pio também rejeitou isso, de forma sucinta: “Citamos novamente a juízo o comunismo e o socialismo, e vimos quanto as suas formas ainda as mais mitigadas, se desviam dos ditames do Evangelho.” O Papa João XXIII também mais tarde reiteraria este ponto em sua encíclica de 1961 Mater et Magistra, dizendo: “Entre comunismo e cristianismo, o pontífice declara novamente que a oposição é radical, e acrescenta não se poder admitir de maneira alguma que os católicos adiram ao socialismo moderado”.

Para ser justo, Pio admoestou o “individualismo” extremo e o capitalismo a respeitar a dignidade humana do trabalhador, o qual não pode “permutar-se como qualquer mercadoria.” Ele ressaltou que o que é necessário não é uma reação excessiva, como os socialistas propõem, para destruir todo o sistema de mercado livre, mas sim “o primeiro e mais necessário remédio, que é a reforma dos costumes.” A postura da Igreja sempre foi uma abordagem comedida, protegendo os direitos do empregador e do empregado por meio de um retorno à caridade cristã e preocupação com o próximo.

O Papa Pio deixou suas críticas mais duras à “praga comunista”. Ele a denunciou com linhas e paráfrases como: “guerra de classes sem tréguas nem quartel e completa destruição da propriedade particular”; “por todos os meios ainda os mais violentos”; “bárbaro e desumano se mostra”; “as mortandades e ruínas”; “o ódio declarado contra a santa Igreja e contra o mesmo Deus”; “a impiedade e iniquidade do comunismo”; “porão a sociedade a ferro e fogo”; “abre caminho à subversão e ruína completa da sociedade.”

O Papa Pio XI ainda não havia terminado. Em 1937, emitiu outra encíclica, Divinis Redemptoris, sobre o comunismo ateu. Pio novamente não mediu palavras. Ele exortou que “os fiéis não se deixem enganar! O comunismo é intrinsecamente perverso e não se pode admitir em campo nenhum a colaboração com ele, da parte de quem quer que deseje salvar a civilização cristã.” É um “sistema cheio de erros e sofismas”. A encíclica foi direcionada diretamente ao “perigo ameaçador” posto pelo “comunismo bolchevista e ateu, que se propõe como fim peculiar revolucionar radicalmente a ordem social e subverter os próprios fundamentos da civilização cristã.”

O comunismo é particularmente nocivo, pois “priva a pessoa humana da sua dignidade”; “os direitos naturais… são negados ao homem indivíduo, para serem atribuídos à coletividade.” Na coletividade “qualquer direito de propriedade privada… tem que ser radicalmente destruído.” A coletividade também rege o casamento e a família. “Repudia os contratos matrimoniais… que não dependam da vontade dos indivíduos ou da coletividade.” Pense em “divórcios de cartão postal”. A propagação do comunismo tem sido auxiliada por uma propaganda “diabólica” dos “filhos das trevas” e uma “conspiração do silêncio” pela imprensa não-católica, devido em parte a “diversas forças ocultas que já há muito porfiam por destruir a ordem social cristã.” Isso soa familiar.

Em 1991 o papa João Paulo II publicou a Centesimus Annus pelo 100º aniversário da Rerum Novarum. Ela reafirmou o ensinamento católico de que a raiz do problema do totalitarismo moderno é a negação da dignidade transcendental da pessoa humana. “Ele considera cada homem simplesmente como um elemento e uma molécula do organismo social, de tal modo que o bem do indivíduo aparece totalmente subordinado ao funcionamento do mecanismo econômico-social.” O militarismo e a luta de classes marxista derivam da mesma raiz: “o ateísmo e o desprezo da pessoa humana, que fazem prevalecer o princípio da força sobre o da razão e do direito.” Como o Venerável Fulton Sheen sabiamente observou, “o comunismo pretende estabelecer o impossível: uma irmandade entre os homens prescindindo da paternidade divina.”

George Orwell conhecia bem esse engano socialista, adaptando o mantra em A Revolução dos Bichos: “Todos os bichos são iguais.” No entanto, como os porcos declaram mais tarde na história, “alguns bichos são mais iguais que outros.” Sua verdadeira natureza eventualmente é revelada. Isso é o “duplipensar do Partido” de Orwell. Quão assustadoramente reais são o “pensar criminoso” e a “polícia do pensamento” de 1984 para o ambiente atual do politicamente correto nos campi das universidades americanas e nos governos europeus. O Muro de Berlim pode ter caído e a U.R.S.S. pode ter sido dissolvida, mas o marxismo cultural está tão forte como nunca. As vanguardas progressistas da esquerda continuam como as herdeiras ideológicas dos socialistas e comunistas do século XX. Elas dão continuidade à revolução ao aceitarem os “erros da Rússia” e ao atacarem a propriedade privada, o livre mercado, a liberdade individual e a liberdade de expressão, o casamento tradicional e a família, a liberdade de consciência e a liberdade de religião. Pode não existir no momento um “Império Maligno”, um único estado totalitário, mas há um estado mental totalitário presente; o impulso imperioso na mídia e em nossos sistemas educacionais, governamentais e judiciais. O Big Brother ainda está à espreita.

Ainda assim, temos esperança. A Igreja triunfou sobre o comunismo soviético. E Cristo nos assegurou de que as portas do inferno não prevalecerão sobre a Igreja. Nos dias sombrios de 1917, em meio à Primeira Guerra Mundial e ao desencadeamento dos males do ateísmo comunista, a Virgem Maria prometeu: “Por fim, o meu Imaculado Coração Triunfará.” Sim, o Leviatã continua a atacar furioso, mas sua cabeça já foi esmagada.

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Autor: Brian Kranick

Brian Kranick é um escritor freelancer sobre todas as coisas católicas. Possui mestrado em Relações Internacionais, Administração e Teologia Católica.

Fonte: Crisis Magazine 

Traduzido por Mariana Leite – Membro do Grupo de Estudo DATING em Brasília – DF e servindo no Núcleo de Tradução da Rede de Missão YOUCAT BRASIL.

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