1. INTRODUÇÃO

A Igreja para que não passe despercebido – já que no calendário litúrgico ocorre no dia 15 de agosto –, nos oferece através da santa liturgia deste domingo, a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora em corpo e alma à glória celeste. Esta verdade de fé arraigada na Tradição mais antiga da Igreja, está em conexão com o mistério da Ressurreição de Jesus. O corpo de Maria, através do qual Deus entrou na história humana, preparado e santificado desde toda a eternidade, é coroado de gloria e participa da vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. A Assunção de Maria é o cumprimento antecipado da glória que nos aguarda, em outras palavras, esta verdade proclama a ressurreição de Maria, e a sua inserção no mistério da “comunhão dos santos”, como expressamos na última parte do símbolo da fé, o credo.

Existe um princípio teológico que reza o seguinte: “lex orandi, lex credendi”, ou seja, aquilo que Igreja celebra na liturgia é aquilo no qual a Igreja acredita”, e podemos acrescentar: “e vice-versa”. O dogma definido pela Igreja é a explicitação de um mistério da fé, que a Tradição sempre celebrou desde as origens e ao longo da história através da festa litúrgica da “Dormição de nossa Senhora”. Nesta festa, a fé cristã proclama a manifestação do destino celeste e eterno da Mulher, que Deus escolheu para ser a sua morada no meio dos homens. Como afirmávamos, a fé da Igreja se expressa na sua vida celebrativa, que precede a sua doutrina, por isso este mistério presente através dos séculos chegou a ser definido como verdade de fé pelo Papa Pio XII em 1950. O dogma afirma que no fim da sua vida terrestre Maria foi glorificada, sem entrar em detalhes sobre a sua morte, mas sem dúvida alguma, podemos pensar que Nossa Senhora, seguindo em tudo as pegadas do seu Filho experimentou também a morte, como passagem inerente à condição humana, contudo foi exaltada por Deus Trino, quer dizer, ressuscitada para participar da gloria eterna dos bem-aventurados.

Através de Maria, o Deus transcendente entra na história humana e se torna visível, portanto: como poderia experimentar a corrupção da morte aquela excelsa e ao mesmo tempo, simples mulher, que como novo tabernáculo trouxe a salvação gerando o Verbo de Deus nas suas entranhas? Como poderia a mãe de Deus sofrer a condena da morte e as suas consequências, se em função dos méritos de Cristo foi totalmente santificada sem experimentar as consequências da concupiscência e do pecado original?

Seguindo a primeira carta de Paulo aos Coríntios (15,20-26) proposta pela Igreja nesta solenidade, nós podemos ver como Maria participa da glória da ressurreição, porque depois do Seu Filho “primícias da vitória sobre a morte”, o apóstolo enumera uma ordem ou sequência dizendo: “os que forem de Cristo”. Em consequência, podemos nos perguntar: quem pertence mais a Cristo do que sua própria mãe? Quem está mais próxima do Senhor, não só a nível afetivo ou moral, mas fisicamente (“hipostáticamente” na linguagem técnica da teologia) do que Nossa Senhora?

2. APOCALIPSE – EVANGELHO

A Palavra de Deus que temos escutado nos apresenta inicialmente um texto muito particular do Novo Testamento. O livro do Apocalipse (que significa em grego revelação) foi escrito por João, o evangelista, no período da perseguição dos cristãos, escarnecida pelo imperador romano Nero (perseguição prolongada até o período do imperador Domiciano no fim do terceiro século). O texto está escrito com uma linguagem cifrada e simbólica, com o qual se pretende encorajar as pequenas comunidades cristãs que sofrem e parece desfalecem, em resumo, a mensagem do apocalipse é: “a situação é dramática, mas quem perseverar com fé vencerá em Cristo!”.

A cena descreve uma mulher grávida perseguida por um dragão. Na interpretação bíblica esta imagem multidimensional pode ser aplicada ora à comunidade eclesial ou à figura de Maria, a mãe de Jesus de Nazaré. No primeiro caso, a “mulher” é a Igreja que gesta com dores de parto seus filhos numa continua ameaça das forças infernais, portanto, destinados ao martírio. O dragão vermelho é a força do poder do império romano, que com uma impressionante inteligência militar e o poderio no combate conseguiu conquistar toda Europa, dominar povos inimigos e eliminar possíveis ameaças. No entanto, como a Palavra da Sagrada Escritura transcende sempre o momento histórico, e assim, o dragão indica não somente o poder do anticristo na figura do império romano, mas também as perseguições anticristãs de todas as épocas. Por exemplo, estas formas infernais se concretizaram em perseguições sistemáticas nos últimos séculos, através de ideologias materialistas como o marxismo-leninismo na Rússia e na Alemanha com o nazismo. Não poderíamos deixar de mencionar, a instauração da chamada revolução cultural na china comunista de Mao Se Tun. Hoje o dragão aparece nas religiões fundamentalistas, como por exemplo, o viés fanático-terrorista do islã, ou a sutileza da ditadura do relativismo, propagada por certas ideologias: para que Deus? Que sentido tem Deus na vida? A religião só atrapalha e inibe a liberdade humana! São perguntas e afirmações desta sociedade secularizada.

Na segunda interpretação, alguns Padres da Igreja (Santo Agostinho e outros) viram também a mulher grávida como figura de Maria: “vestida do sol” significa a graça da luminosidade divina, porque ela é toda de Deus; “a coroa de doze estrelas” representa o povo de Israel (as 12 tribos), e posteriormente os doze apóstolos que são as testemunhas da vida pública, morte e ressurreição do Senhor; e finalmente, “a lua sob seus pés” é a imagem da mortalidade e precariedade humana, vencida por Deus e em Deus na glorificação da mãe do Senhor.

Por outro lado, o evangelho nos apresenta o encontro de Maria (grávida do Filho de Deus) com a sua prima Isabel (grávida de João Batista), e o cântico de exultação, que a Virgem Maria proclamou solenemente – segundo a versão exclusiva de Lucas – no pequeno vilarejo de Eim Karem, nas ladeiras ocidentais da cidade de Jerusalém. Esta cena do encontro é conhecida na linguagem teológica como a “Visitação”, e por sua vez, o cântico de Maria, é chamado de “Magnificat”, já que a primeira palavra deste hino bíblico na língua latina reza assim: “Magnificat [anĭma mea Domĭnum…]”.

Entre tantas coisas que poderíamos dizer sobre este denso e belo fragmento do evangelho de Lucas, que preside esta solenidade da Assunção de Nossa Senhora, vamos ressaltar o valor profético de uma das frases que Maria expressou neste cântico de louvor, que está em consonância perfeita com as bênçãos (Berakah) das orações litúrgicas da tradição judaica. Portanto, Maria exclama: “Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo”.

Maria escolhida por Deus para colaborar – dando à luz o Verbo de Deus, acompanhando seu Filho na vida pública e no longo e árduo caminho da Igreja através da história –, e por isso intuiu humildemente, a transcendência do seu “sim” a Deus através do Anjo Gabriel e a importância da sua missão escondida e discreta. Ela é a “Bem-aventurada”, porque acreditou e gerou a salvação da humanidade, por isso a Igreja a venera, os fiéis invocam a sua materna intercessão e o povo de Deus “[por] todas as gerações”, expressa de uma forma multidimensional (música, literatura, artes plásticas, devoções, etc.) uma entranhada e profunda cultura mariana.

 

3. ATUALIZAÇÃO CATEQUÉTICA

Maria participa com toda a Igreja – porque ela é seu membro mais excelso – do triunfo de Cristo sobre o mal. O mal não é uma ideia ou um símbolo, mas uma realidade pessoal, que se opõe a Deus e que o Senhor misteriosamente deixa agir, para que possamos exercer a nossa liberdade. O mistério do mal atemoriza, mas Deus protege e cuida à Igreja (a mulher) com alimento oportuno no deserto (os sacramentos, especialmente a Eucaristia); a transporta a um lugar seguro, para que possa dar à luz o seu filho (os cristãos, renascidos através do batismo); e como comunidade (a Igreja), possa assim cumprir a sua missão perante o mundo, testemunhar o amor e a salvação oferecida por Deus a toda a humanidade.

Cada um de nós, enquanto que está unido a Deus pela Igreja nesta nossa peregrinação terrena, gera a Cristo dentro de si, isto nos permite fazer uma analogia sobre a fé. A fé pode ser perfeitamente comparada com a gestação, pelas muitas nuances que nos proporciona e ao mesmo tempo pelas diversas fases de crescimento que implica, já que é um processo dinâmico e transformador. Esta metáfora tem fortes ressonâncias espirituais e existenciais.

Pelo batismo foi-nos dado a semente da eternidade através de Jesus Cristo nosso Senhor. Essa semente precisa desenvolver-se para que possamos chegar à estatura adulta e madura de Cristo, e fazer presente no mundo, a luz que Deus fez irradiar para iluminar e salvar todos os homens. Mas esta gestação é sujeita a perigos e também é ameaçada, por isso, a fé é confrontada pelas perseguições e sofrimentos (como o aborto ameaça a vida gestada no seio da mulher). Maria com a Igreja nos convida a estar unidos a Cristo e não temer, porque Ele nos precede e nos conduz como em asas de águia. A Assunção proclama esta vitória, em Maria saboreamos este enorme mistério da fragilidade da fé que paradoxalmente é fortalecida pela perseguição.

Cantemos os louvores a Deus e contemplemos em Maria Assunta as primícias da nossa própria salvação! Ela é o ícone da nossa plena glorificação! Nela se realiza de forma definitiva a vitória sobre o pecado, a morte e o mal, que é a boa notícia do cristianismo!

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AUTOR: Pe. Carlos Fernando Hernandez Sánchez (Mestre e Doutorando em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana – Roma e professor do Seminário Arquidiocesano em Brasília-DF))

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