Avida litúrgica da Igreja nos abençoa com muitas grandes celebrações ao longo do ano, todas destinadas a ajudar-nos a refletir sobre algum aspecto de nossa redenção, que Jesus Cristo ganhou por nós na Cruz. Às vezes, essas celebrações são tão importantes que nós, como católicos, somos obrigados a assistir à Missa e a evitar o trabalho, como se fosse um domingo. Uma dessas celebrações é a Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria, também conhecida como Dormição da Mãe de Deus.¹

Muitos de nossos irmãos cristãos não-católicos ficam confusos sobre o motivo pelo qual esta solenidade recebe tanto destaque, assim como muitos católicos nas ruas e até nos bancos das igrejas. Hoje muitos católicos batizados hesitam em ir à Missa todo domingo, quanto mais durante a semana. Por que devemos ir à Missa nesse dia? Definitivamente, há uma razão pela qual essa Solenidade é tão importante e por que a Santa Mãe Igreja espera que cada um de seus filhos participe do Santo Sacrifício da Missa em homenagem a ela.

Recebendo a Glória de Deus

Para entender o significado desta Solenidade da Assunção, precisamos primeiro voltar alguns dias para uma festa que celebramos em 6 de agosto, a Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esse relato está registrado nos três Evangelhos sinóticos, e o próprio São Pedro fala sobre o evento em sua Segunda Carta. Durante a Transfiguração, Moisés e Elias aparecem ao lado de Jesus, representando os profetas e a lei. Mas o Papa Bento XVI ressalta que a aparição desses dois santos do Antigo Testamento nos mostra outra coisa. Ambos receberam revelações de Deus. Moisés a recebeu quando subiu o Monte Sinai, mas quando pediu a Deus para que pudesse ver sua face, Deus respondeu que Moisés poderia apenas vê-lo de costas (cf. Ex 33, 18-23). Da mesma forma, Elias experimenta a manifestação da glória de Deus como uma brisa suave (cf. 1 Rs 19, 11-13). Tanto Moisés como Elias são incapazes de receber a plenitude da glória de Deus. Mas isso tudo muda no Novo Testamento.

Na Transfiguração, nosso Senhor revela a si mesmo a três dos Apóstolos, Pedro, Tiago e João, no Monte Tabor. Entretanto, esta revelação não é parcial ou obscurecida. Os Apóstolos experimentam toda a glória de Jesus de forma que eles, em sua condição humana limitada, ficam completamente sobrecarregados. O Papa Bento XVI descreve o que transparece: 

Diversamente do que aconteceu nestes dois episódios, na Transfiguração não é Jesus que recebe a revelação de Deus, mas é precisamente nele que Deus se revela e que revela o seu rosto aos Apóstolos. Portanto, quem quer conhecer Deus, deve contemplar o rosto de Jesus, o seu rosto transfigurado: Jesus é a revelação perfeita da santidade e da misericórdia do Pai. […]

“Jesus […] não recebe a revelação daquilo que deverá cumprir: já o conhece; são sobretudo os Apóstolos que ouvem, na nuvem, a voz de Deus que comanda: ‘Escutai-o!’.

“A vontade de Deus revela-se plenamente na pessoa de Jesus. Quem quer viver segundo a vontade de Deus, deve seguir Jesus, ouvi-lo, aceitar as suas palavras e, com a ajuda do Espírito Santo, aprofundá-las.

Vida Nova em Jesus

De fato, na Transfiguração de Jesus, nós como cristãos batizados encontramos nossa origem. Desde o momento em que fomos batizados na morte e Ressurreição de Jesus (cf. Rm 6, 3-4) recebemos uma vida nova, na qual somo chamados a crescer em santidade. Este processo é comumente chamado de divinização ou teose. São Pedro expõe isso em sua Segunda Carta, ao refletir sobre o que testemunhou no Monte Tabor:

O poder divino deu-nos tudo o que contribui para a vida e a piedade, fazendo-nos conhecer aquele que nos chamou por sua glória e sua virtude. Por elas, temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por esse meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à cor­rupção que a concupiscência gerou no mundo. […]

“Eis por que não cessarei de vos trazer à memória essas coisas, embora estejais instruídos e confirmados na presente verdade. […] Na realidade, não é baseando-nos em hábeis fábulas imaginadas que nós vos temos feito conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, mas por termos visto a sua majestade com nossos próprios olhos. Porque ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando do seio da glória magnífica lhe foi dirigida esta voz: ‘Este é o meu Filho muito amado, em quem tenho posto todo o meu afeto’. Essa mesma voz que vinha do céu nós a ouvimos, quando estávamos com ele no monte santo. (2 Pedro 1, 3-4.12.16-18)

Em Cristo, nossa natureza humana compartilha de sua natureza divina. É como o oposto da Encarnação. Jesus, a Palavra de Deus, condescendeu e se humilhou para se tornar homem e assumir nossa natureza. Mas, porque Ele é Deus, nosso Senhor Jesus é capaz de fazer o mesmo conosco por meio do nosso batismo e ao levarmos uma vida santa na qual obedecemos seus mandamentos. Ele permite que o homem se torne como Deus, concedendo a todos nós que n’Ele cremos participar da vida divina. Agora que entendemos tudo isso, podemos dar uma olhada na Assunção e seu significado em nossas próprias vidas.

O Significado da Assunção

Se vemos nossa origem à luz da Transfiguração, então podemos ver nosso destino na Assunção de Nossa Senhora ao céu. A Bem-aventurada Virgem Maria teve um privilégio que ninguém recebeu desde então. Em sua sabedoria, Nosso Senhor trouxe Sua Mãe para o céu, corpo e alma, no fim de sua vida terrena. Como todos sabemos, não nos reuniremos com nossos corpos até depois da segunda vinda de Cristo. É por isso que dizemos, no Credo Niceno-Constantinopolitano, que esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir. Mas nossa mãe Maria pôde desfrutar dessa honra não apenas por causa de sua própria vida imaculada, mas também para dar esperança a todos nós.

O Papa São João Paulo II colocou bem quando disse: 

Sua Assunção ao céu não é apenas o culminar de sua vocação particular como Mãe e discípula do Senhor Jesus, mas também um sinal eloquente da fidelidade de Deus ao plano salvífico universal, ordenado para a redenção de todo homem e de todos os homens.

Maria Unida à Fonte da Vida

Citando a Constituição Apostólica Munificentissimus Deus do Papa Pio XII (que solenemente e infalivelmente declarou que a Assunção de Maria é uma questão de fé que foi divinamente revelada por Deus), o Catecismo da Igreja Católica resume sucintamente o propósito da Assunção:

‘Finalmente, a Virgem Imaculada, preservada imune de toda a mancha da culpa original, terminado o curso da vida terrena, foi elevada ao céu em corpo e alma e exaltada pelo Senhor como rainha, para assim se conformar mais plenamente com o seu Filho, Senhor dos senhores e vencedor do pecado e da morte.’ A Assunção da santíssima Virgem é uma singular participação na ressurreição do seu Filho e uma antecipação da ressurreição dos outros cristãos:

‘No teu parto guardaste a virgindade e na tua dormição não abandonaste o mundo, ó Mãe de Deus: alcançaste a fonte da vida. Tu que concebeste o Deus vivo e que, pelas tuas orações, hás-de livrar as nossas almas da morte.’. (CIC 966)

O CIC também acrescenta que ela “participa já na glória da ressurreição do seu Filho, antecipando a ressurreição de todos os membros do Seu Corpo” (CIC 974).

A Vida Divina que Espera os Fiéis

Quão maravilhoso é saber que é precisamente isso o que nos espera! Quando refletimos sobre essa realidade, devemos ficar cheios de alegria. É por isso que em muitos edifícios clássicos da Igreja, particularmente nas Igrejas Orientais, você pode notar que a Assunção está representada na saída do edifício, na parede ocidental. É assim para que sejamos constantemente lembrados a pensar no fim de nossa vida terrena à luz da Assunção de Maria, oferecendo-nos a ser envolvidos no abraço amoroso de nosso Senhor.

Falando em Igrejas Católicas Orientais, vamos dar uma olhada na segunda metade do parágrafo 966 do CIC novamente. Essa oração vem do tropário (um hino Bizantino) da Solenidade da Dormição. O Catecismo da Igreja Greco-Católica Ucraniana, Cristo Nossa Páscoa (daqui em diante chamado de CCNP), revela o mistério da Assunção com mais detalhes do que o CIC. Observe a linguagem no início do trecho, em relação à divinização:

A Igreja dirige-se com desvelo à Mãe de Deus, a primeira mulher divinizada, com as palavras: ‘Santíssima Mãe de Deus, salvai-nos!’, entendendo que o que salva é a graça de Deus que está nela. Sua morte serena e suave, como o sono, morte na plenitude da graça resultou no seu despertar para o céu e recebeu o nome de ‘Dormição’. A Dormição da Mãe de Deus é apresentada no ícone da festa como ‘nascimento’ para o céu: Cristo tem nos braços a alma de Maria envolta em faixas. Na festa da Dormição, a Igreja professa que a Mãe de Deus não sofreu na morte a corrupção corporal, mas ‘foi transportada, transferindo-se da terra para as mansões celestes’, foi levada de corpo e alma pelo Senhor à glória celeste. A Mãe de Deus foi a primeira dentre o gênero humano que foi glorificada em seu corpo, o que é imagem também da nossa ressurreição. A Mãe de Deus, sendo Mãe da Vida, transportou-se à Vida e ‘na Dormição não deixou o mundo’. Sua perene intercessão diante do Criador a Igreja celebra […]: ‘A Virgem está presente na Igreja e com os coros dos santos intercede invisivelmente por nós diante de Deus’. (CCNP 313)²

Assunta pelo Poder de Deus

Tudo se conecta ao que aprendemos ao analisar a Transfiguração. Maria se torna totalmente divinizada, como um dia seremos quando entrarmos pelos portões celestiais. É por isso que a solenidade é tão importante na vida da Igreja. Ela, uma mera criatura, recebeu a plenitude da vida. Ela está vivendo a vida para a qual todos somos destinados por Deus. E como também somos meras criaturas, Nossa Senhora da Esperança nos fortalece com seu exemplo, da mesma maneira que Nosso Senhor fortaleceu os Apóstolos com Sua Transfiguração antes de Sua Crucificação. De fato, por meio de sua Assunção, ela “mostra-nos Jesus, bendito fruto de seu ventre”, ao ser assunta unicamente por Seu poder, e também nos mostra o que aguarda aqueles que fazem Sua vontade e cumprem Seus Mandamentos.

Isso nos leva a um último paralelo entre a Transfiguração e a Assunção. Observe as palavras que Deus Pai diz aos Apóstolos, que ficam com medo e caem com a face por terra:  “Eis o meu Filho muito amado, em quem pus toda a minha afeição: ouvi-o(Mt 17, 5).

Agora, justaponha isso com o que Maria, a Mãe de Deus, diz aos serventes da festa de casamento em Caná: “Fazei o que ele vos disser” (Jo 2, 5).

O Pai e a mãe de Jesus nos dizem a mesma coisa: seguir o Filho de Deus aonde quer que ele nos leve. É exatamente disso que se trata a Assunção. Nossa Senhora aponta continuamente para seu Filho e, ao fazer constantemente a vontade de Deus, ela nos mostra quão grande será nossa recompensa celestial: a reunião de nosso corpo e alma na presença de nosso Senhor e Salvador. Como não poderíamos querer ir à missa neste dia?! Como dizemos no Ato de Louvor, “Bendita seja sua gloriosa Assunção”, e que ela continue a interceder sempre por nós. Embora sua jornada esteja completa, a nossa não está. Como o Papa Bento XVI confirma: Maria é aurora e esplendor da Igreja triunfante; ela constitui a consolação e a esperança para o povo ainda a caminho.” 

¹N.T.: No Brasil, por razões pastorais, esta celebração, quando a data do dia 15 de agosto não coincide com o domingo, é transferida para o domingo seguinte.

²SÍNODO DA IGREJA GRECO CATÓLICA UCRANIANA. Cristo – nossa Páscoa: Catecismo da Igreja Greco-Católica Ucraniana. Curitiba: Serzegraf, 2014, 368 p.

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Autor: Nicholas LaBanca

Nicholas é um católico de 20 e poucos anos que tem várias funções (marido, pai, comerciante, catequista em educação religiosa, pós-graduado em artes liberais, etc.) e espera dar uma perspectiva única da vida na Igreja como um representante da “geração do milênio”. Seus santos favoritos incluem seu patrono São Nicolau, Santo Inácio de Loyola, São Tomás de Aquino, São João Maria Vianney e Santo Atanásio de Alexandria. 

Fonte: Ascension Press 

Traduzido por Mariana Leite – Membro do grupo de estudos YOUCAT Dating São Judas Tadeu, voluntária no Núcleo de Tradução.

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