Eclipse do Corpo

[Nota: Este é o primeiro de um total de dois trechos do novo livro de Christopher West, “Eclipse do Corpo: Como perdemos o significado de Sexo, Gênero, Matrimônio, Família e como reconquistá-lo”. Esse livro curto e de fácil leitura conecta os pontos entre a carta profética do Papa Paulo VI com a Teologia do Corpo de João Paulo II (desenvolvida enquanto uma defesa e florescimento  da Humanae Vitae) e como elas fornecem o antídoto para a cultura sexualmente caótica atual.]


Como a nossa cultura veio a se esquecer – ou mesmo dispensar – o fato de que as genitais foram feitas para a geração da vida? Desde o começo da história, homens e mulheres têm buscado maneiras – geralmente rudes e ineficazes – de impedir o poder gerador dos órgãos sexuais. Entretanto, apenas com a explosão da borracha no metade do século de 1800, e com a invenção da pílula anticoncepcional no século seguinte, foram encontrados meios muito mais consistentes e confiáveis de fazê-lo.

Ainda assim, se uma verdadeira revolução contraceptiva estava para ocorrer, ela precisaria não só de novas tecnologias, mas também de novas mentalidades. Ainda que seja difícil imaginar isso hoje em dia, a contracepção, na maioria do mundo ocidental, não somente era desaprovada no século XX como sendo uma prática imoral, como também era ilegal. Aqueles que promoviam campanha pela sua aceitação sabiam que eles fariam muito pouco progresso  sem a “benção” dos líderes cristãos. Poucos hoje sabem disso, mas, até 1930, todas as denominações cristãs eram unânimes em sua firme oposição a qualquer tentativa de separar as genitais da geração da vida. Naquele ano, a igreja Anglicana sucumbiu à pressão e abriu as portas à contracepção nas conferências de Lambeth. Com isso, eles se tornaram o primeiro agrupamento cristão a quebrar com o contínuo ensinamento da Igreja primitiva, com os santos durantes de todos os séculos, e com todos os reformadores, desde Lutero e Calvino até os seguintes.

Dentro de poucas semanas, o Papa Pio XI respondeu o seguinte:

“Uma vez que, rompendo abertamente com a ininterrupta tradição Cristã, alguns recentemente julgaram possível solenemente declarar outra doutrina sobre essa questão, a Igreja Católica… levanta sua voz em sinal de sua embaixada Divina e … proclama mais uma vez: o uso de o que quer que seja no matrimônio, exercido de uma maneira que aja deliberadamente contra o seu poder natural de gerar a vida, é uma ofensa contra a lei de Deus e da natureza” [Casti Connubbi, paragráfo 56]

Nos anos que se seguiram, cada uma das grandes denominações protestantes deixaram de condenar a contracepção, não somente para aceitá-la, mas para advogar a favor dela. Uma pressão global inimaginável era então colocada sobre a Igreja Católica para que acompanhasse a mudança, e muitos achavam que estava surtindo o efeito desejado. No começo dos anos 1960, o Concílio Vaticano II afirmou que eles reservariam o julgamento de certas “questões que requerem outras investigações mais aprofundadas”. Essas “foram confiadas, por mandato do Sumo Pontífice, a uma Comissão para o estudo da população, da família e da natalidade; uma vez terminados os seus trabalhos, o Sumo Pontífice pronunciará o seu juízo. No atual estado da doutrina do magistério, o sagrado Concílio não pretende propor imediatamente soluções concretas”. [ Gaudium et Spes 51, nota 14].

O ponto em questão era a pílula anticoncepcional, a nova tecnologia que, naquela época, parecia para alguns não se enquadrar sob os ensinamentos tradicionais contra a concepção. A admissão implícita de uma incerteza nesse ponto deu a impressão de que a benção do Papa para a pílula estava por vir. De fato, a maioria da comissão Papal que estudou sobre a pílula aconselhou ao Papa Paulo VI que não só aceitasse a pílula, mas também que seguisse os líderes das outras comunidades cristãs e mudasse, junto com os outros, os ensinamentos da Igreja. Quando o relatório da maioria da comissão vazou na imprensa no começo de maio de 1967, havia um senso de que a mudança do ensinamento era iminente. Uma semana depois, o Papa Paulo VI visitou Fátima. Ele foi até lá no dia da festa de Nossa Senhora de Fátima (13 de maio) e rezou especificamente contra as “novas ideologias” que estavam ameaçando a Igreja por introduzir uma “mentalidade profana” e “moralidade mundana” [Veja a homilia de Paulo VI em Fátima, 13 de maio de 1967].

Pouco mais de um ano depois, em 25 de julho de 1968, o Papa Paulo VI chocou o mundo quando publicou a Carta Encíclica Sobre a Vida Humana (Humanae Vitae), reafirmando o ensinamento tradicional Cristão contra a contracepção, incluindo a pílula. Ainda que ele tenha sido ridicularizado e escarnecido globalmente – por pessoas de fora, e infelizmente por pessoas de dentro da Igreja –, suas palavras eram proféticas. Ele advertiu que um mundo de contracepção se torna um mundo de crescente infidelidade, um mundo onde mulheres e filhos são degradados, um mundo onde seres humanos acreditam que podem manipular seus corpos segundo a sua vontade [Humanae Vitae 17]. Em outras palavras, o Papa Paulo VI mostrou ser, ele mesmo, um “astrônomo”, que entendeu o poder da contracepção para o eclipse do significado do corpo, lançando uma sombra escura sobre o significado da diferença entre os sexos em si, e portanto, sobre o significado do casamento e da família.

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Fonte: Cor Project

Traduzido por Ludmila Giacone – Membro da Rede de Missão do YOUCAT BRASIL, como Voluntária nos Núcleos de Tradução, Formação e atualmente também participa do Grupo de Estudo YOUFAMILY em Brasília – DF.

 

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