abemos que Deus é Trindade porque Jesus partilha conosco sua íntima vida de oração. Sinalizada de várias formas no Antigo Testamento, a Trindade é abordada de forma direta tanto nos Evangelhos quanto nas epístolas do Novo Testamento. Posteriormente, a Igreja organizou o que sabemos sobre ela em termos claros e precisos. A Trindade, uma comunhão de Pessoas Divinas em absoluta unidade, revela uma dimensão eterna sobre o que queremos dizer ao afirmar que “Deus é amor”. Entretanto, a Trindade não pode ser completamente entendida, porque Deus é mistério, muito além da compreensão humana.

O Relacionamento entre o Pai e o Filho

De acordo com o Catecismo da Igreja Católica, “Filho de Deus, no Antigo Testamento, é um título dado aos anjos, ao povo eleito, aos filhos de Israel e aos seus reis” (nº 441). Porém, os Evangelhos frequentemente falam que Jesus é o Filho de Deus em um sentido tanto novo quanto único. Antes do nascimento de Jesus, o anjo Gabriel disse a Maria que Jesus “será chamado Filho do Altíssimo” (Lc 1, 32). Ao ser encontrado no Templo, o menino Jesus disse que estar no Templo de Deus é estar “na casa de meu Pai” (Lc 2, 49). Até o demônio tenta Jesus mais tarde, dizendo: “Se você é o Filho de Deus, ordene que essa pedra se transforme em pão” (Lc 4, 3).

No Evangelho de João, Jesus fala mais diretamente sobre o que significa sua Filiação: “Porque Deus amou tanto o mundo que enviou seu único Filho para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16). Também: “Quem me vê, vê o Pai… Crede-me: estou no Pai, e o Pai em mim. Crede-o ao menos por causa dessas obras” (Jo 14, 9-11). Assim, a Filiação divina de Jesus é completamente única. A Igreja entende que o Filho procede eternamente do Pai, que é a origem da Divindade, ainda que as duas Pessoas sejam iguais em divindade.

Quando Jesus reza, ele conversa com seu Pai. Em sua Oração Sacerdotal, ele rezou: “Pai justo, o mundo não te conheceu, mas eu te conheci, e estes sabem que tu me enviaste” (Jo 17, 25). Quando Ele ressuscita Lázaro, “levantando Jesus os olhos ao alto, disse: ‘Pai, rendo-te graças, porque me ouviste. Eu bem sei que sempre me ouves, mas falo assim por causa do povo que está ao meu redor, para que creiam que tu me envias­te’” (Jo 11, 41-42).

O termo Abba é bem conhecido, ainda que somente seja encontrado uma única vez nos Evangelhos. É um termo aramaico que Jesus usou para expressar sua particular afeição e intimidade com seu Pai. Esse termo é registrado na boca de Jesus apenas em sua agonia no horto, quando rezou: “Abba, Pai, tudo é possível a ti. Se possível, afasta de mim este cálice. Contudo, não se faça o que eu quero, senão o que tu queres” (Mc 14, 36). É comum que os Evangelhos, escritos em grego, usem a palavra grega padrão para pai – pater. Mas o uso original feito por Jesus da palavra Abba certamente teve um impacto na consciência dos primeiros cristãos, uma vez que ela foi citada duas vezes em epístolas, também como “Abba, Pai” (Rm 8, 15; Gl 4, 6).

Quando os discípulos pediram a Jesus que os ensinassem a orar, ele os instruiu a se dirigirem a Deus como “Pai nosso que estais no céu” (Mt 6, 9). Aqui, Jesus, o Filho natural e eterno, partilha seu Pai conosco, os filhos adotivos do Pai. Assim, na Liturgia, a Oração do Senhor é introduzida por essas palavras: “Obedientes à palavra do Salvador e formados por seu divino ensinamento, ousamos dizer: Pai Nosso…”. Como ensina o Catecismo, só chamamos Deus de nosso Pai; apenas Jesus pode chamar Deus de meu Pai (nº 443). Por essa razão, São Paulo escreve: “Porquanto não recebestes um espírito de escravidão para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção pelo qual clamamos: Abba! Pai!” (Rm 8, 15).

No Espírito

Como São Paulo escreve acima, é somente no Espírito que podemos clamar “Abba, Pai!”. Ele continua: “Da mesma forma, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis. E aquele que perscruta os corações sabe o que deseja o Espírito, o qual intercede pelos santos, segundo Deus” (Rm 8, 26-27).

É isso que Jesus quer dizer quando Ele afirma: “Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece, mas vós o conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós. Não vos deixarei órfãos. Voltarei a vós” (Jo 14, 15-18).

Jesus prometeu ir ao encontro dos discípulos no Espírito Santo. O Espírito Santo iria permanecer com os discípulos, interceder por eles, convencê-los a respeito do pecado, relembrá-los acerca dos ensinamentos de Jesus, confortá-los, e ajudá-los a crescer em seus caminhos. Jesus disse a seus discípulos: “Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ele vos ensinará toda a verdade, porque não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir, e vos anunciará as coisas que virão” (Jo 16, 13). Além disso, o Espírito Santo iria absolvê-los do pecado, graças ao Ministério da Igreja. Dessa forma, o Cristo ressuscitado soprou sobre os Apóstolos e disse: “Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados, e àqueles a quem não perdoardes, eles lhes serão retidos” (Jo 20, 22-23).

O Espírito Santo também será a força que os impulsiona para a salvação. Como São Paulo escreve, “Se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dos mortos habita em vós, ele, que ressuscitou Jesus Cristo dos mortos, também dará a vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós” (Rm 8, 11).

Jesus ordenou que seus discípulos batizassem “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28, 19). Lendo o Antigo Testamento à luz da Revelação de Jesus sobre o Espírito Santo, os cristãos vêem o Espírito Santo agindo no ato da criação (Gn 1, 2). Dados os poderes divinos do Espírito Santo, a Igreja crê na plena divindade do Espírito Santo. Ademais, compreendemos a missão do Espírito Santo no tempo (isto é, enviado pelo Pai e pelo Filho) como sendo reflexo de sua eterna processão na divindade. Por isso, a Igreja ocidental proclama que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho.

Definido pela Igreja

Enquanto cristãos, aprendemos a ler as Escrituras relativas ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo à luz da doutrina da Trindade. Esse é um exemplo da leitura da Escritura de acordo com a analogia da fé (Catecismo, nº 114). Os primeiros cristãos compreendiam a Trindade intuitivamente pela fé, mas ainda não eram capazes de plenamente defini-la. Eles podiam, porém, sentir a heresia se houvesse alguma interpretação distorcida. Depois de controvérsias e debates, e guiada pelo Espírito Santo, a Igreja levou muitos séculos para chegar à completa doutrina sobre a Trindade. Nesse caminho, a Igreja desenvolveu o termo pessoa como hoje utilizamos para falar de um indivíduo com uma natureza racional. A doutrina da Trindade afirma que há um único Deus, e três distintas e igualmente Pessoas divinas – Pai, Filho e Espírito Santo.

Jesus ensinou aos seus discípulos: “Tudo que o Pai possui é meu” (Jo 16, 15). Assim, no Concílio de Nicéia, em 325, os bispos definiram que o Filho é consubstancial ao Pai. Os bispos professaram a fé “em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos. Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai; por ele, todas as coisas foram feitas”.

Os bispos em Nicéia ficaram satisfeitos em simplesmente professar a fé “no Espírito Santo” até que hereges se aproveitaram dessa ausência de definição para falsamente ensinar que o Espírito Santo era uma criatura. Dessa forma, o Primeiro Concílio de Constantinopla em 381 professou a fé “no Espírito Santo, Senhor que dá vida, e procede do Pai e do Filho; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: Ele que falou pelos profetas”.

A Trindade dá expressão à afirmação revolucionária da Primeira Carta de João – “Deus é amor”. Ali lemos que “Nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem para conosco. Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (1 Jo 4, 16). O Pai, o Filho e o Espírito Santo permeiam aquele capítulo, levando-nos a interpretar que Deus é amor porque Deus é Trindade. O amor recíproco do Pai e do Filho gera eternamente o Espírito Santo; graças ao sábio e amoroso desígnio de Deus, Ele compartilha essa bondade com as criaturas.

O amor em Deus é um eterno relacionamento para o qual Ele nos atrai. De acordo com Jesus, nos Evangelhos, a Trindade é um relacionamento indizível de amor. Assim, muito além de uma simples fórmula, a Trindade é uma das crenças mais fundamentais da Igreja e é a misteriosa razão que perpassa as incontáveis obras divinas de amor.

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Autor: Michael Ruszala

Fonte: Ascension Press

Traduzido por Tiago Veronesi Giacone – membro da Rede de Missão do YOUCAT BRASIL, servindo nos Núcleos de Tradução, Formação e também participante do Grupo de Estudo YOUFAMILY em Brasília – DF.

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