aaaaaaaaaaaaarrrrkkkk!” ela gritou, fazendo a vizinhança inteira saber que a minha presença era requisitada em casa imediatamente. Eu sempre conseguia saber quando minha mãe estava preocupada com meu paradeiro e minha mãe tinha a estranha habilidade de transformar meu nome – uma palavra monossilábica – em uma exclamação polissilábica que faria até os cachorros de rua fugirem.

Era nesses momentos, também, que eu lamentava meu homônimo, São Marcos¹, sentindo como se, na grande loteria da família católica para os melhores nomes de santos, eu teria perdido de alguma forma. Quer dizer, meus irmãos mais velhos podiam reivindicar matadores de demônios como São Miguel, encantadores de serpentes como São Patrício e até São Francisco, domador de animais (e agora, ironicamente, alvo dos pássaros em inumeráveis jardins), só para citar alguns. E então, lá estava eu… preso com o bom e velho Marcos, cuja única qualidade cativante, na minha mente jovem e sarcástica, era a de ter escrito o Evangelho mais curto dentre os quatro, o que significava que a missa da catequese da nossa paróquia deveria ter sido mais curta. Infelizmente, minha matemática litúrgica estava um pouco errada; um livro do Evangelho mais curto nunca significava uma proclamação do Evangelho mais curta (nem a homilia, aliás).

Mas só foi mais tarde, durante meus anos de ensino médio, que um missionário abriu meus olhos para o presente que minha mãe e meu pai haviam me concedido através do discernimento orante para a escolha do meu nome.

O que há em um nome?

Um exame mais atento do Novo Testamento revela que o autor do segundo Evangelho era, na verdade, conhecido como “João Marcos” (At 12, 25; 15, 37). Apesar de João ser seu nome hebreu, ele tornou-se mais conhecido pelo seu nome romano, Marcos, e por uma boa razão.

Como os gregos antes deles, os romanos tinham mais deuses do que o McDonald’s tem de pedidos. Romanos tinham um deus para tudo – sexo, tempo, agricultura, o que você quiser. O deus romano da guerra era chamado Marte, do qual “Marcos” é derivado. O quão abençoadamente diferente minha infância teria sido se alguém tivesse me informado do fato de que o nome “Marcos” – meu nome – é traduzido como “poderoso guerreiro”. Esse detalhezinho teria sido útil em mais quadras de queimada do que eu poderia contar.

Por que, no entanto, o evangelista escolheria responder pelo seu nome romano enquanto buscava espalhar a Boa Nova de Cristo? Seria porque ele não queria ser confundido com o muito mais conhecido “João”, o filho de Zebedeu e discípulo amado de Jesus? A resposta, na verdade, tem raízes muito mais profundas.

Deus designou cada um de nós com uma missão específica, e Marcos não foi exceção. O público principal para o qual São Marcos escreveu foram os cristãos gentios (não-judeus) que viviam em Roma. Inspiradas pelo Espírito Santo, as palavras de Marcos traziam esperança aos Cristãos que enfrentavam forte perseguição na época. Dado esse fato, não deveria ser surpresa que o retrato de Jesus feito por Marcos seja o de um guerreiro que realiza maravilhas, uma combinação perfeita de poder divino e misericórdia para com a humanidade. Em poucas palavras, se você consegue “entender” o Evangelho segundo São Marcos (que é o mais curto e o mais fácil), você terá a base para entender os outros três e o restante do Novo Testamento.

Muitas coisas fazem do Evangelho segundo São Marcos um pouco diferente dos outros três. Você não encontrará muitos sermões longos no Evangelho segundo São Marcos (só dois, para ser exato), nem vai encontrar a “história por trás” da natividade que você encontra em Mateus e Lucas. Não, em Marcos, Jesus é um Deus de ação, realizando milagres e expulsando demônios a cada página virada. O Evangelho segundo São Marcos é acelerado e cheio de energia, o que é uma razão para o símbolo associado a São Marcos ser o leão. A força e o poderio de Jesus são vistos em cada página… é como se, quando Cristo fala, o céu rugisse com amor e misericórdia.

Por meio da caneta de São Marcos, o Espírito Santo sopra urgência em cada capítulo. Se você ler o Evangelho do início até o final, perceberá que Marcos usa a palavra “imediatamente” cerca de 40 vezes em apenas 16 capítulos curtos. Note, também, que após a crucificação de Cristo, não é um judeu, nem mesmo um cidadão romano comum, mas um oficial romano de alto escalão – um centurião – que primeiro proclama a identidade de Cristo como “Filho de Deus” (Marcos 15, 39). Uma declaração tão ousada de um soldado altamente treinado e reverenciado, sem dúvida, levantou as sobrancelhas de mais do que alguns na plateia romana à época.

Talvez a paixão e urgência comunicadas no relato de São Marcos reflitam tanto sobre o autor quanto sobre o seu Senhor. Alguém deve se perguntar, entretanto, de onde essa paixão e conhecimento íntimo de Cristo vieram, se São Marcos não foi um dos Doze Apóstolos.

Os Santos por trás do Santo

O Novo Testamento revela tantas coisas interessantes sobre nossa Igreja primitiva; entre elas, que não era muito diferente da Igreja hoje… as pessoas nem sempre se davam bem.

Enquanto Marcos era primo de São Barnabé (Cl 4,10), foi o seu relacionamento com outros dois “VIPs” que deram a Marcos sua credibilidade e informação. São Marcos era companheiro de viagem tanto de São Pedro como de São Paulo, o que ofereceu a ele o melhor dos dois mundos apostólicos. Pedro, obviamente, tinha um relacionamento próximo com o jovem evangelista, referindo-se a ele intimamente como “meu filho Marcos” (1 Pd 5,13). O Evangelho segundo São Marcos foi evidente e fortemente influenciado pelo pescador que se tornou pastor, Pedro, nosso primeiro Papa, oferecendo detalhes de testemunhas oculares que somente poderiam ser conhecidos pelo próprio Pedro (Mc 4, 35-38; 5, 38-41). De fato, um exame atento do testemunho de Pedro em Atos dos Apóstolos (10, 36-43) revela quase um esboço de todo o Evangelho segundo São Marcos. Seja um escriba ou secretário de gravação ou apenas um aluno com memória intocada, o testemunho de Marcos da vida de Cristo foi fortemente influenciado pelos relatos de testemunha ocular dos bastidores de Pedro.

São Paulo também tinha íntimo conhecimento prático de Marcos, levando-o em sua primeira jornada missionária (At 13,5) a qual nós descobrimos que foi interrompida por algum motivo, pois Marcos deixou a missão mais cedo (At 13,13). O que quer que tenha acontecido tornou-se uma óbvia fonte de tensão entre ele e Paulo (At 15, 36-41), mas foi depois reconciliado, quando Marcos se uniu novamente a ele em futuros esforços missionários (Cl 4,10; Fm, 24). Paulo até elogiou publicamente a utilidade ministerial de Marcos em sua carta a Timóteo (2 Tm 4,11).

Em Marcos, temos o retrato de um verdadeiro discípulo, alimentado por um amor apaixonado por Cristo, mas ainda suscetível a momentos de imaturidade espiritual, egocentrismo e teimosia. Ele partilhou a Boa Nova (Evangelho) de Jesus com todos os que encontrou enquanto pessoalmente crescia em virtudes. Ele não esperou até que fosse “perfeito” para compartilhar Jesus Cristo; Marcos buscou Cristo primeiro, confiando que Sua graça preencheria as lacunas.

A Bíblia nos ajuda a ver onde precisamos crescer em santidade, e nos oferece discernimento valioso sobre como fazê-lo. É por isso que as Escrituras são tão vitais para a nossa caminhada diária na fé.

Avançando

Você está, como São Marcos, disposto a seguir Cristo aonde Ele te guiar? Está preparado para usar cada dom, talento e situação dados a você para levar outros a Ele? Está pronto para encontrar o Jesus real do Evangelho, e não apenas a visão que seus pais têm sobre Ele e que foi passada para você?

Rezar com a Escritura vai mudar a sua vida para sempre. Visualize a cena. Busque os adjetivos. Preste atenção aos detalhes. Realmente “entre” no momento. Olhe nos olhos de Jesus. Veja o leão embaixo do exterior de cordeiro. Permita que o Evangelho te inspire e de desafie, te surpreenda e te conforte. Ouça atentamente com os ouvidos do seu coração enquanto seu Pai Celestial te chama pelo nome… e seja grato que, por qualquer que seja seu nome e qualquer que seja a pessoa de quem você recebeu o nome, pela virtude do seu batismo você é filho de Deus, e seu nome está escrito no céu (Lc 10,20).

Boa leitura.

São Marcos, rogai por nós!

N.T.: Mark, em inglês, corresponde a Marcos, em português.]

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Autor: Mark Hart

Mark Hart atua como Vice-presidente executivo da Life Teen International. Graduado na Universidade de Notre Dame, Mark é um autor best-seller e premiado (ou co-autor) de mais de uma dúzia de livros. O humor de Mark e sua paixão pelas Escrituras estão ajudando centenas de milhares de católicos, jovens e idosos, a começar a ler e estudar a Bíblia de maneira envolvente e relevante.

Fonte: Life Teen

Traduzido por Mariana Leite – Membro do grupo de estudos YOUCAT Dating São Judas Tadeu, voluntária no Núcleo de Tradução.

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