uando eu leio os Evangelhos, repletos de histórias da vida de Jesus, sinto às vezes como se estivesse lendo a história em quadrinhos de um super-herói completo de traços super-humanos e reviravoltas perfeitamente roteirizadas para qualquer ocasião. Existem até supervilões. Mas ao contrário dos super-heróis, Jesus não tem falhas. Ele é perfeito. Ele é Deus! Assim, sendo uma católica que sofreu com depressão e ansiedade, algumas vezes tive dificuldades para sentir que Jesus, salvador do mundo que pode ressuscitar mortos, poderia compreender como é ser um ser humano imperfeito como eu.

Somos ensinados que Jesus foi plenamente Homem e plenamente Deus. É um daqueles mistérios da nossa fé que amamos dizer mas que talvez não consigamos devidamente contemplá-lo. Se Jesus foi plenamente humano, em teoria, ele poderia compreender todo nosso espectro de emoções e necessidades. Ele chorou e se decepcionou. Ele amava e ansiava pelas coisas. Ele foi tentado, sentiu raiva e ficou irritado. Ele até sentiu fome, sede e exaustão. Com isso, é como se ele pudesse riscar todas as emoções de sua “lista de experiências humanas”. Embora, apesar de podermos concordar que ele realmente sentiu todas essas emoções, é difícil não se questionar se ele realmente se sentiu sobrecarregado por elas.

Depressão e ansiedade podem e realmente dominam uma pessoa. É como se seu próprio corpo te traísse. Você se sente encurralado e fora de controle. Então me pergunto, como Deus pode se sentir preso? Ele é Deus. Ele está no controle de tudo. Ele tem um plano divino. Deus não pode Se sentir desamparado porque Ele nunca esteve desamparado. Ele nunca Se sentiu preso. Ele pode ter sido humano, mas será que realmente foi tão humano assim? Por um bom tempo, para mim, a resposta para essa pergunta era “Não”.

Pelo menos era o que eu pensava até recentemente enquanto lia a história de Jesus rezando no Horto das Oliveiras. Os Evangelhos nos contam que ele estava angustiado. Ele rezava desesperadamente. Ele estava em pânico. Os fariseus clamavam por sua cabeça. Judas estava a caminho. Pedro iria traí-lo. Seus discípulos não conseguiam sequer ficar acordados com ele. E como a humanidade se virava contra ele, seu próprio corpo, cuja forma é humana, também se virou contra Jesus.

Em Marcos, Jesus diz aos seus discípulos: “Minha alma está numa tristeza mortal”.

Agora, não sei para você, mas me parece uma ótima descrição da depressão. A depressão é a decadência da morte se alimentando de você, te dominando, te exaurindo, te apodrecendo por dentro até que você seja somente um cadáver ambulante.

O Evangelho de Lucas também nos conta sobre o sofrimento de Jesus naquele horto: “Ele entrou em agonia e orava ainda mais, e seu suor tornou-se como gotas de sangue a escorrer pela terra.”.

Se isso não é um ataque de pânico, então eu não sei o que um é. O pânico se espalha conforme o mundo se fecha e você se sente esmagado por todos os lados, enquanto explode internamente. E o que é pior, nosso corpo faz isso com ele próprio. Somos traídos pelo próprio vaso destinado a nos manter seguros.

Lendo estes versículos, eu me senti vista e compreendida de uma forma que não sentia há muito tempo. Foi um clique. Deus não entende a depressão e a ansiedade porque Ele compreende todas as coisas de uma maneira sagrada, porque Ele é o criador do mundo. Jesus não passou simplesmente por todas moções de ser humano. Jesus compreendeu todas essas experiências humanas, porque ele foi totalmente humano, porque ele as experimentou. Jesus é Todo Poderoso e, ainda assim, sentiu as trevas da depressão apunhalarem a sua alma. Jesus está em completo controle e ainda assim sente o pânico dominá-lo. Jesus compreende a fraca e frágil natureza do vaso que é o corpo humano, porque uma vez ele mesmo habitou nele. 

Agora, essa percepção não cura a depressão ou magicamente previne ataques de pânico. Não é assim que funciona. Mas de fato nos recorda que, mesmo que a depressão e a ansiedade mintam e digam que Deus nos abandonou, Jesus nos conta uma história diferente. Jesus nos diz: “Você não sofre sozinho”. Veja aqui, no horto, eu sofro com você, eu sofro por você. Eu entendo, porque eu senti isso também. Não há nenhum lugar, nem as profundezas da depressão nem o caos de um ataque de pânico, que você vá que eu não possa ir, ou não vá antes de você.

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Autor: Danielle Vaclavik 

Danielle Vaclavik, Ph.D., é uma católica que, depois de um tempo afastada da fé, agora está numa missão de mesclar suas duas paixões: o ministério religioso e o conhecimento. Sua pesquisa é também hoje seu trabalho: o Serviço Cristão de Avaliação, Tributação e Pesquisa (em inglês, Christian E.A.R.S.), o qual se empenha para fazer pesquisas e avaliações acessíveis a organizações de ministério religioso. Danielle atualmente mora em Chicago, onde ela dedica seu tempo livre sendo uma completa nerd em ficção científica e fantasia.

Fonte: Bustedhalo

Traduzido por Gabriel Dias – Membro da Rede de Missão do YOUCAT BRASIL, como Voluntário no Núcleo de Tradução, e atualmente também participa de Grupo de Estudos YOUCAT DATING, em Brasília/DF.

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