m termos mundanos, a vida de Chiara Corbella não foi uma história de sucesso: duas crianças morrendo logo após o nascimento, ela sendo devastada por um câncer agressivo, que a matou aos 28 anos, deixando um marido amado e um filho pequeno para trás. Este não é o material com que sonhos são feitos. No entanto, quando alguém ouve os depoimentos de seus amigos, marido ou diretor espiritual, ouve mais sobre sua história e olha para seu rosto radiante e bonito em fotografias e videoclipes, não se pode deixar de sentir que a vida dela foi extraordinária. Cada santo tem um carisma especial, um tema particular, alguma faceta de Deus, que ele reflete, devido a seu caráter, chamado e história específicos. O dela, eu diria, é testemunhar a alegria diante de uma grande adversidade, do tipo que faz o coração transbordar, apesar da tristeza pela perda e pela morte.

Chiara morreu em 13 de junho de 2012 e sua história se espalhou como um incêndio florestal. A igreja estava lotada em seu funeral, que foi conduzido pelo vigário geral de Roma, cardeal Agostino Vallini; mídias sociais, agências de notícias e jornais espalharam a notícia e logo ela era conhecida em todo o mundo. As pessoas queriam saber mais e, portanto, duas amigas, Simone Troisi e Cristiana Paccini, presentes em todos os momentos importantes da vida dela e de seu marido, escreveram sua biografia: “Siamo nati e non moriremo mai più” (Nascemos e Jamais Morreremos), publicada em junho de 2013. Minha cópia de janeiro de 2014 já é a 8ª impressão, o que demonstra sua grande popularidade. Eu participei de um dia de oração em Assis que foi focado em sua vida e espiritualidade, e seu diretor espiritual, Padre Vito d’Amato, franciscano, e também seu marido, Enrico, nos conduziram durante o dia. Cerca de 1.000 pessoas compareceram, incluindo muitos casais jovens e suas crianças, o que é impressionante para a Itália, onde as pessoas tendem a se casar tarde e têm poucos filhos.

Tragédia e graça superabundante

A história de Chiara e Enrico começou como muitas: se apaixonaram, casaram e começaram uma família. Ao ver os videoclipes de seu casamento, ficamos impressionados com a beleza dela, a piedade do casal e seu grande amor um pelo outro. Ela engravidou dentro de um mês. Outras mães que esperam o primeiro filho ficam radiantes, mas o rosto dela parecia sério nas fotos da época. Este foi o primeiro anúncio do que estava por vir. Foi, ela disse depois de ter confiado o bebê à Virgem em Porciúncula, como se sentisse desde o início que esse filho não era para ela, que ela não ficaria com esse filho. Isso acabou sendo verdade. Durante um ultrassom às 14 semanas, o ginecologista notou que algo estava seriamente errado. A menina, por sua vez, era anencéfala e morreria logo após o nascimento. Foi difícil para Chiara ouvir e digerir essa notícias por conta própria, mas ainda pior foi ser portadora da má notícia para o marido. No entanto, o que parecia uma dificuldade adicional na época (o marido estava no hospital fazendo uma cirurgia) se tornou uma graça superabundante. Ele respondeu com muito amor, confirmando a fé dela nele.  

A filha deles foi uma bênção, e eles a amariam e a acompanhariam durante sua breve jornada na Terra. Eles resistiram à pressão de muitos médicos que os incentivaram a abortar; e  também não quiseram induzir artificialmente o nascimento, o que significaria encurtar a vida da filha deles. Finalmente, a situação tornou-se crítica, já que Chiara tinha muito líquido amniótico e a condição de sua filha significava que o trabalho de parto não começaria por conta própria. Contra a vontade deles, eles finalmente concordaram em marcar uma data para uma indução, mas colocando tudo nas mãos de Deus. No dia da indução programada, Chiara entrou em trabalho de parto naturalmente e nasceu a pequena Maria Grazia Letizia. Ela morreu 40 minutos depois de nascer, tendo recebido o sacramento do batismo e a unção dos enfermos, nos braços de seus pais em 10 de junho de 2009. Sua vida, como seus pais diziam, foi perfeita: ela havia sido amada e respondeu a esse amor, nada faltou. O coração de seus pais estava estranhamente cheio de alegria; eles não experimentaram a tristeza devastadora que esperavam, embora lamentassem sua perda. Através dela, eles realmente aprenderam que amar significava dar, e que seu oposto, como São Francisco havia ensinado, não era ódio, mas o desejo de possuir.

Olhando para trás, Enrico e Chiara disseram que eram capazes dessa jornada porque davam um pequeno passo de cada vez; e a cada passo Deus lhes dava a graça suficiente para perseverar. Chiara sentiu que estava preparada para esses desafios pela dificuldade que eles enfrentaram desde o namoro. Nada, disse ela, nem a morte de seus filhos, nem seu próprio câncer, nem sua própria morte, foi tão difícil para ela como esse tempo antes do casamento. Chiara e Enrico se conheceram em Medjugorje em 2002; ela tinha apenas 18 anos, mas sabia que Enrico era o homem com quem ela queria se casar. No entanto, eles tiveram um tempo difícil juntos, brigando com frequência, terminando às vezes, apenas para voltarem a ficar juntos. Finalmente, após um rompimento, Padre Vito, citando o Apocalipse, disse a ela que se Deus abrisse uma porta, ninguém poderia fechá-la, mas se Deus fechasse, então ninguém poderia abri-la (Ap. 3, 7). Embora sentisse que sua vida só seria completa em termos humanos ao se casar com Enrico, ela colocou tudo nas mãos de Deus. Mas, como Enrico disse em Assis, não havia nada fatalista nisso.

Deus deixou que eles escolhessem o tempo todo, eles eram livres e suas vidas não seria sem sentido se não se casassem um com o outro. Eles se encontraram brevemente depois do que parecia ser o término final e ele estava pronto para dizer algumas coisas críticas, quando ela, pela primeira vez, simplesmente se mostrou a ele do jeito que era, sem fingir que era melhor ou tentar fazer as coisas funcionarem a todo custo. Ela não conseguia parar de chorar, revelando a ele o quanto ela o amava. Ele se sentia mais à vontade sem ela, porque ela o desafiava, pedia a ele um amor com o qual ele ainda não estava pronto para se comprometer. Mas uma vez que ele se comprometeu, as coisas começaram a se encaixar e eles se casaram em setembro de 2008 em Assis, local que havia se tornado um lar espiritual para eles. Enrico a pediu em casamento numa peregrinação a pé para lá, organizada pelos franciscanos. A alegria deles era uma reminiscência de São Francisco, experimentando o amor superabundante de Deus, que nenhuma tristeza poderia dissipar.

Mais tristeza e mais Graça

Mas Deus estava preparando seus corações para mais – mais tristeza e mais graça. Após a morte de Maria Grazia Letizia, eles rezaram e decidiram que não havia motivo para esperar. Chiara ficou grávida de novo e as coisas pareciam bem a princípio e todos pensavam que essa criança os consolaria de sua perda anterior. Depois, descobriu-se que o filho pequeno tinha uma deficiência grave e nasceria sem os membros inferiores. Eles já estavam examinando diferentes tipos de próteses, quando descobriram que ele também não viveria, pois lhe faltavam alguns órgãos vitais. O pequeno Davide Giovanni nasceu em 24 de junho de 2010 e viveu apenas 38 minutos; depois de ser batizado e abraçado, ele também foi ao encontro de Deus. Seus pais deixaram o hospital com o coração cheio de amor e consolo divino. A alegria que sentiram enquanto seguravam seus filhos nos braços era algo que eles não imaginavam e que lhes seria negado se tivessem abortado. Eles não se lembrariam do dia do aborto com gratidão, mas comemoraram o dia em que seus filhos foram para o céu com gratidão.

Um número ainda menor de pessoas compareceu ao segundo funeral, como disse o padre Vito, e não eram mais as mesmas do primeiro. Muitos de seus amigos os haviam abandonado. Quando a cruz lança sua sombra, afasta os fracos de coração. Novos amigos estavam presentes e seu número aumentaria, que os acompanharia na jornada final ao Gólgota.

Existem os Simãos de Cirene e os Verônicas que Deus envia ao longo do caminho para nos ajudar a carregar nossas cruzes e nos consolar. Mas há também aqueles que se afastam e aqueles cujos conselhos pesam sobre nossos corações, em vez de aliviar nossos fardos. Os amigos de Jó estão presentes em todas as idades; eles afirmam estar falando por Deus, mas são realmente os advogados do diabo, fazendo com que se sinta responsável pelo próprio sofrimento. Foi por causa de seus pecados, alguns sugeriam, por sua falta de fé que Chiara e Enrico tiveram filhos doentes e que Chiara agora tinha câncer. Se eles tivessem mostrado fé suficiente, então Deus teria feito milagres, era a opinião deles. O que eles não conseguiram ver é que Deus estava operando milagres o tempo todo nos corações de Chiara e Enrico e naqueles que os cercavam. A conversão do coração é o maior milagre da Terra, em comparação com ela, é fácil caminhar sobre a água. Deus estava com eles nessa jornada, guiando seus passos, não os punindo por quaisquer falhas reais ou imaginárias.

Foi realmente sobrenatural, como enfatizou o Padre Vito, como Deus consolou Chiara e Enrico em suas provações. Encontrar Deus em uma situação que a maioria das pessoas consideraria insuportável e que os levaria ao desespero é um milagre por si só. Chiara e Enrico descobriram que, clamando a Deus como uma criança clama a seu pai, eles seriam carregados; a cruz que de outro modo os teria esmagado, se tornara leve. No dia de sua morte, Enrico perguntou a Chiara, se a promessa de Cristo era verdade, de que a cruz era fácil, até doce. Ela sorriu e disse que sim, que a cruz era “molto dolce”. 

Uma criança nasce e o sofrimento é oferecido

Após a morte de Davide, o casal rezou novamente e decidiu ter outro filho. Os problemas de seus filhos não eram devidos a doenças genéticas; não havia ligação entre essas doenças díspares e raras e, portanto, não havia razão para o próximo filho ter alguma doença também. Pouco tempo depois, Chiara ficou grávida de novo. Desta vez, tudo estava certo, exceto que ela tinha uma ferida preocupante na língua, que não se curava. Acabou descobrindo-se que isso era tumor maligno. Como Santa Gianna Beretta Molla, Chiara decidiu colocar seu filho em primeiro lugar e não receber tratamentos contra o câncer que poderiam prejudicar seu filho que estava sendo gerado; essa foi uma escolha heroica, uma vez que a Igreja reconhece que é moralmente lícito buscar tratamentos que salvam vidas, mesmo que possam causar indiretamente a morte da criança. (O que nunca é moralmente aceitável é o assassinato direto intencional de uma pessoa inocente; portanto, o aborto nunca é permitido.)

Durante a gravidez, ela foi operada na língua e sofreu muito porque não podia tomar analgésicos muito fortes, o que seria potencialmente perigoso para a criança. Tampouco queria induzir o nascimento até Francesco ter todas as chances de ter uma vida saudável. Francesco nasceu por indução duas semanas mais cedo, em 30 de maio de 2011, e dois dias após seu nascimento, ela foi operada novamente; desta vez, foi um verdadeiro Getsêmani. Ela sofreu muito e passou por uma noite escura da alma; ela sentia como se Deus estivesse ausente. Mas isso não durou e todos rezaram para que a radioterapia erradicasse o câncer. Geralmente, apenas os fumantes na casa dos 70 anos têm o tipo de câncer que ela teve. Era uma doença tão estranha quanto a de seus filhos; tudo sem relação, mas se unindo para moldar uma história que levaria a uma grande santidade.

Por ora, Chiara e Enrico estavam felizes por serem pais normais, tendo um filho para cuidar com todo o estresse e exaustão que isso implica. No entanto, o câncer progrediu apesar de mais tratamentos e testes. Em 4 de abril de 2012, eles ouviram o veredicto final: Chiara estava em estado terminal. Ela não queria saber quanto tempo restava, para que ela pudesse viver plenamente no presente. Eles se mudaram para a casa dos seus pais no campo para ter um pouco de paz e sossego; Enrico parou de trabalhar e, de certa forma, foi o momento mais feliz deles. Foi também um período de grande graça. Eles receberam a bênção do papa Bento durante uma audiência de quarta-feira e contaram brevemente sua história.

Foi-nos mostrado um longo clipe de uma palestra que ela deu contando sua história. Ela estava usando um tapa-olho (sua visão no olho direito foi afetada pelo câncer), podia-se ver o traço da cirurgia em seu pescoço, sua risada era um pouco desigual, assim como a boca quando ela falava. No entanto, mal se notava; ela era radiante, bonita, sorridente. Quando Enrico falou conosco, com uma grande foto dela projetada na tela atrás dele, ele disse: “Oh, como ela era linda! Sua beleza me distrai ainda hoje”. Enquanto ela dava testemunho para suas amigas naquele clipe, ela estava sorrindo por entre lágrimas em certos momentos. Ela não estava atuando, não era estoica, nem falsa; a alegria dela era real. Ela estava presente para suas amigas com alegria e dor. Pode-se dizer que ela não esperava ser curada. Ela disse que havia se entregado a Deus; ela gostaria de viver para o marido e o filho, mas Deus sabia o que era melhor e, portanto, deixou que Ele decidisse.

Padre Vito pôde estar com eles dias seguidos durante esse período, celebrando missas em sua casa, dando suporte espiritual a ela durante esse último trecho de sua curta vida. Ela tinha três medos: dor (que, ela temia, a faria duvidar de Deus), vômito (ficava enjoada demais e mal conseguia comer) e purgatório. Desde a morte de seus dois filhos, ela não tinha mais medo disso por si mesma. Ela estava esperando o noivo chegar, ansiosa pelas núpcias. Ao nos contar isso, Padre Vito levantou o braço e disse, em relação ao medo do purgatório, “ma va”, que significa “vamos lá”, pois ele pensava que ela iria direto para o céu. Ela recebeu a graça de estar acordada até o fim. Ela pediu para morrer rapidamente, se morrer ela devesse, e sua oração foi atendida. Em 13 de junho de 2012, ela deu o último suspiro e entrou na vida eterna.

Padre Vito e Enrico não queriam que essa reunião se tornasse um encontro de “fã-clube”. Foi um dia de oração, de aprender a dizer “Abba Pai”, entrando na filiação de Cristo como Chiara, confiando plenamente em Deus em todos os sofrimentos. Enrico estava preocupado com o perigo de colocá-la em um pedestal; ela era normal, tinha suas fraquezas, tentações e sofrimentos como todos nós. Mas ela disse “sim” a tudo o que Deus enviou em seu caminho e assim se tornou uma verdadeira filha de Deus. Enrico disse acreditar que ela era uma santa e esperava que um dia sua foto fosse pendurada na varanda de São Pedro. Eu também acho, mas acho que haverá duas fotos: a dela e a dele.

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Autor: Marie Meaney 

Marie Meaney, é doutora e autora do livro “Embracing the Cross of Infertility” publicado além de inglês, em espanhol, húngaro, croata e alemão. Além disso, ela é especialista na filósofa e mística francesa Simone Weil, e seu livro “Simone Weil’s Apologetic Use of Literature: Her Christological Interpretations of Ancient Greek Texts” foi publicado pela editora da Universidade de Oxford em 2007. Ela era professora na Universidade de Villanova na Filadélfia antes de se mudar para a Itália devido ao trabalho do marido em 2010. A Dra. Meaney recebeu seu doutorado em Línguas Modernas pela Universidade de Oxford. Ela também obteve um título de mestrado em filosofia pela Academia Internacional de Filosofia no Liechtenstein e um diploma de graduação da Universidade de Sorbonne em Paris.

Fonte: Catholic Exchange 

Traduzido por Ludmila Giacone – Membro da Rede de Missão do YOUCAT BRASIL, como Voluntária no Núcleo de Tradução, Formação e participante do grupo YOUFAMILY.

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