Quando pensamos a respeito da Quaresma, raramente vem à mente alimentar nossos desejos. Ao contrário, para aqueles que jejuam ou vivem outras práticas penitenciais, a Quaresma se parece mais com um período em que negamos nossa fome e mortificamos os desejos. Talvez até seja um tempo em que sentimos fisicamente fome pela primeira vez em um longo espaço de tempo. Isso é bom e é assim que deve ser.

Mas eu acrescentaria que há uma fome que devemos satisfazer nessa Quaresma: a fome por Deus.

Imerso em cada coração humano, existe um profundo desejo por Deus. É um anseio pelo infinito, por alegria sem fim, e por uma vida transcendente que não acaba. Frequentemente, negligenciamos essa profunda fome e ela permanece inconsciente. Para muitos, esse grito do coração é abafado ou quase totalmente extinto pelas preocupações do mundo, pelo entretenimento, pelas dúvidas, pela busca incessante pelo prazer, por realizações e por poder.

Contudo, apesar de tudo isso, a fome não passa. Bem no fundo, a ânsia se agita e, em nossos momentos de maior quietude, quando a rasa corrente das impressões cessa, uma insatisfação com o mundo cresce.

O desejo por algo a mais, algo que não sabemos nominar, ecoa quietamente. É quase como a dor de um romance deixado há muito tempo, mas ainda assim lembrado; uma memória melancólica, porém doce, de uma alegria sem nome que nos golpeia, e nesses momentos os prazeres do mundo parecem bastante pálidos e ocos – e é assim que eles são, na verdade.

Esses momentos nos presenteiam com uma escolha. São momentos de acerto de contas com a eternidade. “Você escolhe neste dia”. Morte ou vida. Tempo ou eternidade. O infinito ou o finito. Deus ou o mundo. Prazer momentâneo ou alegria triunfante.

Iremos ouvir a esse chamado, a essa voz interior? Ou vamos entorpecer a sua incômoda agitação imergindo a nós mesmos mais uma vez em uma torrente de estimulação sensorial? Iremos nos voltar para a oração e ir para águas mais profundas, ou iremos suprimir a dor silenciosa com vícios, com consumismo, com distrações sem fim? Nossa resposta está entrelaçada com nosso destino eterno.

A salvação envolve sim o que fazemos; mas eu diria que envolve muito mais o que desejamos. Esforço e trabalho não se referem tanto a ganhar alguma coisa; ao contrário, eles são provas de nosso desejo por Deus. Não podemos nunca forçar Deus a fazer alguma coisa, mas podemos deixar nossos corações preparados.

Como a Quaresma inicia com a Quarta-Feira de Cinzas, eu te desafio a se atentar a essa voz interior. Deixe que o anseio cresça, alimente-o. Permita-se sentir a fome por Deus e então dê espaço a Ele. Livre-se de tudo que não é essencial em sua vida, de modo que você possa encontrar o único necessário.

“Pedi e se vos dará. Buscai e achareis. Batei e vos será aberto. Porque todo aquele que pede, recebe. Quem busca, acha. A quem bate, se abrirá”.

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Autor: Sam Guzman

Fonte: The Catholic Gentleman

Traduzido por Tiago Veronesi Giacone – membro da Rede de Missão do YOUCAT BRASIL, servindo nos Núcleos de Tradução, Formação e também participante do Grupo de Estudo YOUFAMILY em Brasília – DF.

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