A ÚLTIMA MÁSCARA

O apresentador olha para o relógio, observa uma certa impaciência entre os espectadores e promete terminar quanto antes o desfile. Diz que o último número é algo de sensacional, nunca antes visto. Um verdadeiro fecho de ouro.

Levanta-se o pano e aparece… Que fiasco! Um homem! Apenas um homem, vestido, sorridente, de aparência agradável e simpática… Levanta-se entre o público um murmúrio de protesto: “Onde está a mais espetacular das máscaras?” É uma decepção!

O apresentador, porém, acrescenta imediatamente: “Por favor, esperem um instante”. E, num movimento rápido, arranca do rosto sorridente uma película plástica que parece uma pele finíssima; por trás dela aparece a fisionomia horrorosa de um animal que é como uma mistura de todos os animais apresentados: tem o focinho do lobo, os dentes do leão, a cabeça da avestruz, as orelhas da raposa e as penas do pavão… “Senhoras e senhores, diz, apresento-lhes a máscara das máscaras!: uma máscara tão perfeita que encobre todas as outras, uma máscara tão engenhosa que engana até o próprio mascarado”…

Um aplauso forte e interminável ressoa pelo auditório, acompanhado de manifestações evidentes de satisfação. O apresentador volta a colocar a máscara, e o pavoroso animal converte-se novamente naquela figura agradável e sorridente, que começa a andar com desembaraço pelo palco, a contar anedotas divertidas, a cantar maravilhosamente… Pouco a pouco, os espectadores vão-se esquecendo do que viram por baixo daquela máscara e começam a comentar: “Mas não é possível! Tivemos uma alucinação… Este homem é realmente encantador…”

O apresentador está radiante: “Conseguimos o que pretendíamos: enganar a todos. Realmente, esta é a máscara das máscaras”.

Que atitude humana corresponderia a esse tipo tão sofisticado de máscara? As muitas e diversas atitudes que talvez se pudessem definir com as palavras dirigidas por Kierkegaard a um amigo: “A tua função principal é a de te enganares a ti próprio, e parece que o consegues, porque a tua máscara é das mais enigmáticas” [3].

Há pessoas que, por um requintado mecanismo de amor-próprio, pelo alambicado caminho das racionalizações e das justificativas, chegam efetivamente a convencer-se de que o verdadeiro é falso e de que o falso é verdadeiro. Utilizam de maneira tão habilidosa a arte de justificar os próprios erros, de tecer e de entretecer motivos e desculpas, que se convencem de estar com a razão. É como se alguém contasse a si próprio uma mentira tão bem contada que chegasse a acreditar que era verdade; ou, pelo menos, a comportar-se como se fosse verdade.

Isto não é uma pura suposição abstrata. É algo que se dá efetivamente, com mais freqüência do que se imagina. Arquitetam-se “teorias” complicadas e complexos sistemas de pensamento para justificar uma posição pessoal. Aqui se verifica o que tantas vezes se repete: “Quem não vive como pensa, acaba por pensar como vive”. Quando não se aceita a ordem objetiva criada por Deus – o conjunto das normas morais naturais – porque é contrária ao modo como se vive, acaba-se por inventar uma nova ordem, uma “nova moral”, uma “nova verdade” adequada ao próprio comportamento.

A História humana está repleta de exemplos significativos. Jung chegou a demonstrar que a imensa teoria pan-sexualista de Freud era uma “super-estrutura” que justificava o caso pessoal do seu mestre [4]. Os estudos feitos sobre a personalidade de Rousseau revelam que a sua teoria educacional, apresentada na obra L’Émile, era resultado dos traumas da sua infância [5]… Seria longo e enfadonho multiplicar os exemplos, mas a vida e o pensamento de um sem-número de autores dá razão ao que escrevia Étienne Gilson: “Custa aceitar a verdade clara e simples; por isso as pessoas preferem inventá-la[6]. Compreendemos até que ponto o orgulho humano – e a sua fatal conseqüência, a insinceridade – pode deformar a vida pessoal e até a própria História humana?

Fernando Pedreira exprime a mesma idéia através de um pequeno acontecimento da sua vida: “Há tempos contei a história de uma gentil amiga minha que se submeteu a uma operação plástica no nariz. Passados alguns dias e retiradas as bandagens, veio o doutor Pitangui com um espelho para que ela apreciasse os resultados da cirurgia. Minha amiga olhou, olhou, e disse: «Não gostei, não. Me dá outro espelho»[7].

Pode acontecer, por exemplo, que um católico tenha dificuldade em aceitar ou viver a doutrina da Igreja sobre algum ponto, como a castidade, a fidelidade conjugal, a indissolubilidade do matrimônio, a ilicitude dos anticoncepcionais…, e que, ao invés de lutar com empenho e sinceridade por viver essa doutrina mudando de comportamento, procure pelo contrário mudar a doutrina, arranjar uma “teoria” que justifique o seu comportamento. Se, por egoísmo, não quer ter filhos, apela para a iminente “explosão demográfica”, que põe em risco a própria sobrevivência da Humanidade… O que está fazendo? Simplesmente, procurando “outro espelho”…, um espelho que reflita aquilo que quer ver.

É por isso também que determinados teólogos e sacerdotes são tão procurados: porque dizem exatamente o que muitos querem ouvir. Comportam-se como os maus médicos que, ao invés de dizerem a verdade dolorosa, dizem a mentira gostosa que os pacientes querem ouvir. Há já dois mil anos que Sócrates dizia ao sofista Górgias: “Sempre será menos popular um bom médico do que um bom cozinheiro”. Sem comentários.

Sem comentários, mas com o acréscimo destas palavras de Isaías:

Ai dos que chamam ao mal bem e ao bem mal, que da luz fazem trevas e das trevas luz. Ai dos que são sábios aos seus olhos e são prudentes diante de si mesmos e não de Deus. (Is 5, 20-21)

A máscara das máscaras… A mais perigosa de todas, como o mais perigoso artifício do demônio é o de transfigurar-se em anjo de luz, como diz São Paulo (cf. 2 Cor 11, 14). Pois, no fim das contas, o “pai da mentira” é também o “rei das máscaras”.

TUDO ACABA NA QUARTA-FEIRA

O desfile de máscaras – o carnaval – encontra-se no fim. O Zé-pedreiro já tirou as suas roupas de cetim e a peruca de Luís XV, e sente de novo nas mãos a dura picareta de operário. A empregada doméstica deixou de ser Maria Antonieta ou a Rainha de Sabá e voltou ao cansativo trabalho da copa… É a vida real.

O resto era puro carnaval. Mas tudo acaba na quarta-feira, como diz uma das músicas consagradas de Vinícius de Morais:

Tristeza não tem fim. Felicidade, sim. 

A felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar; voa tão leve mas tem a vida breve. […]

A gente trabalha o ano inteiro para fazer a fantasia de Rei ou de Pirata ou Jardineira, para tudo se acabar na quarta-feira.

Esta nostálgica música de fundo não representa, para muitos, o fim de quatro dias de festa, mas o triste desfecho de uma pantomima que durou anos a fio… Os anos em que desfilaram pela passarela da vida vestindo a fantasia, a máscara, de uma existência fictícia e mentirosa… E só tomam consciência dela quando talvez já seja tarde demais para recuperar o tempo perdido.

A vida não é um carnaval, um desfile de máscaras. Não. Não podemos dizer que tudo termina na quarta-feira. Talvez pudéssemos dizer, pelo contrário, que tudo começa na quarta-feira, na realidade viva do dia-a-dia, sem fingimentos, com sinceridade, sem máscaras, correndo decididamente para a realização da nossa personalidade autêntica.

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NOTAS

[1] F. Pérez-Embid, ed., Forjadores del mundo contemporáneo, v. III, 7ª ed., Barcelona, 1971, pág. 

[2] G. Marañón, Don Juan, 4ª ed., Espasa-Calpe, Buenos Aires-México, págs. 68-72 e 96-101.

[3]  J. Collins, El pensamiento de Kierkegaard, México, 1958, pág. 163.

[4] Ch. Baudouin, La obra de Jung y la psicología de los complejos, Madrid, 1967, pág. 82.

[5] A. Saloni, Rousseau, Milão, 1949, págs. 54-57.

[6] A. Livi, Étienne Gilson: filosofía cristiana e idea del límite crítico, Pamplona, 1970, pág. 91; o significado que atribuímos nestas páginas à “máscara das máscaras” aparece plenamente evidenciado em B. Scharfstein, Los filósofos y sus vidas, Madrid, 1984, págs. 208-219.

[7] Fernando Pedreira, in Jornal do Brasil, 23.01.1977.

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Por: Dom Rafael Llano Cifuentes | Fonte: “Vidas Sinceras”, 2ª ed., Quadrante, São Paulo, 2003

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