Encarnação de Jesus

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Encarnação de Deus como um homem é um escândalo. No primeiro século, os judeus esperavam o Messias, mas não imaginaram que ele seria o próprio Filho de Deus. Eles esperavam um líder político messiânico. Jesus, sendo a Segunda Pessoa da Trindade, poderia muito bem ter descido em chamas do Céu, em Seu poder divino e Sua majestade, para estabelecer Seu reino. Porém, sabemos que não foi isso que aconteceu. O Filho de Deus veio em meio à escuridão, na humildade e na pobreza. Este é o segundo escândalo da Encarnação. O ser divino nasceu como um bebê, completamente dependente e indefeso, em uma família pobre, em uma pequena vila, colocado em uma manjedoura. Deus veio como o menor entre nós. Chesterton chamou isso “uma ideia de minar o mundo”. Este é o grande paradoxo do Cristianismo, Deus como homem e até Deus como uma criança, o divino escondido no ordinário. É tão íntimo o Seu amor por nós que Ele veio pessoalmente à nossa procura, quando o Criador entrou em Sua criação e a eternidade entrou no tempo. Quão poucos reconheceram o extraordinário menino entre eles na cena mais ordinária em Belém? Quantas vezes nós ainda deixamos de ver Deus nas nossas circunstâncias ordinárias todos os dias?

A Encarnação é, no seu nível mais básico e profundo, uma história de amor. É o amor de um Deus infinitamente misericordioso por uma humanidade fracassada e perdida. Deus veio ao nosso mundo numa missão de busca e resgate, para nos salvar de nossos pecados. Jesus não veio como o esperado rei conquistador, mas como o inesperado servo sofredor. Ele escolheu entrar no nosso estado de vida, seguir o mesmo caminho que todos nós, de nascer, crescer, trabalhar e, no fim, morrer. Ao fazer isso, Ele escolheu assumir a humildade de nossa natureza humana, a normalidade de nossas circunstâncias e a labuta de nossa vida cotidiana. Isso é realmente uma coisa incrível a se contemplar. Jesus, o Ser Divino, escolheu gastar a maior parte de Sua vida vivendo uma particular e ordinária existência, como a sua e a minha. Deus escolheu viver como nós nos pequenos e mundanos detalhes de nossas vidas. Mas por que?

Nós sabemos que a razão última da Encarnação é a Redenção. Entretanto, para dizer o óbvio, Jesus era Deus mesmo antes de seu ministério público. Quando Ele trabalhou como carpinteiro na oficina de José, Ele era Deus. Quando viveu com Sua Mãe, Maria, Ele era Deus. A missão redentora de Jesus não começou com Seu ministério público. Ela começou com Sua Encarnação e nascimento e continuou pelo espectro de toda Sua vida. Como o Catecismo diz: “Toda a vida de Cristo é mistério de redenção” (CIC 517). O que é quase tão notável é o fato de que quase toda a vida de Cristo foi oculta e aparentemente não espetacular. Como a Igreja diz: “Durante a maior parte da sua vida, Jesus partilhou a condição da imensa maioria dos homens: uma vida quotidiana sem grandeza aparente, uma vida de trabalho manual” (CIC 531). Jesus viveu como um de nós em tudo, exceto no pecado.

Pouco mais é dito na Bíblia sobre este período anterior ao ministério público de Jesus. Não surpreende que, quando pensamos na vida de Jesus, pensamos mais frequentemente nos últimos três anos de Sua vida, Sua vida pública, conforme registrado nos Evangelhos. Estes foram todos os anos importantes, quando Jesus chamou Seus discípulos, pregou o reino de Deus e o arrependimento dos pecados, fez milagres, curas, instituiu os sacramentos, fundou Sua Igreja e, claro, ofereceu a Si mesmo ao Pai por sua Paixão e Crucificação. Parece haver uma grande dicotomia entre as ordinariedades de Seus primeiros 30 anos e a extraordinariedade de Seus três últimos anos. Pode-se imaginar, no início de Seu ministério público, o espanto dos vizinhos quando perguntaram “De onde lhe vem isso?” (Mc 6,2). Eles apenas reconheciam o Jesus “ordinário” e estavam incrédulos ao ver e ouvir o Jesus divino.

Isso levanta a questão: por que Jesus viveu estes dois estágios separados e distintos em Sua vida? Por que havia tamanha diferença entre os primeiros 90% e os últimos 10% de Sua vida?

Os dois períodos distintos da vida de Jesus, a particular e a pública, não estavam em conflito entre si. Toda a vida de Jesus foi vivida cumprindo a vontade do Pai. Desde o início, Ele já estava cumprindo a vontade do Pai em perfeita obediência. Como o Catecismo diz: “Desde o primeiro instante da sua Encarnação, o Filho faz seu o plano divino de salvação, no desempenho da sua missão redentora” (CIC 606). O mistério da redenção estava em ação ao longo de Sua vida, mesmo em Seus anos anônimos, sendo uma pessoa ordinária. Foi uma missão redentora contínua ao longo do espectro da vida de Jesus.

Assim, qual foi a missão redentora de Jesus em sua vida particular? Ele seguiu o mesmo caminho que todos nós seguimos, de nascer neste mundo, crescer e trabalhar. Jesus assumiu todas as nossas circunstâncias e viveu nossas vidas diárias e ordinárias. Ele também viveu nas mais humildes e extremas circunstâncias, de modo a abranger a amplitude e profundidade das experiências humanas. Ele veio intencionalmente para viver por todos estes vários estágios de vida. O Catecismo diz “Toda a vida de Cristo é mistério de recapitulação. Tudo o que Jesus fez, disse e sofreu tinha por fim restabelecer o homem decaído na sua vocação originária” (CIC 518). Jesus recapitulou dentro de Si mesmo todas as nossas ações humanas ordinárias e, de fato, nossa natureza humana muito ordinária. O mistério da recapitulação aconteceu no corpo de Cristo quando “o Verbo se fez carne”. A natureza material do homem foi imersa na vastidão de Sua divindade e a infinita eficácia de Sua natureza divina foi infundida na natureza humana. Essa é a união hipostática – a fusão da humanidade e a divindade – na pessoa de Jesus Cristo. O Catecismo refere a isso como “A obra salvífica da sua humanidade santa e santificadora” (CIC 774). A humanidade de Jesus é o instrumento para redimir nossa natureza humana. Ela foi feita santa e santificada quando Deus tomou nossa natureza e viveu como um de nós. A humanidade foi elevada, restaurada e divinizada na Vida e Ressurreição de Jesus Cristo.

Além disso, à medida que a plenitude da divindade habitava a pessoa de Cristo, todo momento, toda palavra, toda ação, não importava quão pequena ou aparentemente inconsequente, assumia um significado e uma importância divinos. Não há pequenas ações para um Deus-homem. Tudo que Ele fez ou disse era de significado divino. Por causa disso, Santo Tomás de Aquino pode dizer, “Cristo tem mérito desde o primeiro instante da sua concepção”. Todas as ações de Cristo são de valor divino, imbuídas de graça sobrenatural e de valor infinito. Por toda a vida de Cristo, o infinito Deus realizou finitas tarefas humanas, vivendo como um homem comum. Sua humanidade sagrada aparece assim como sacramento, sinal e instrumento da Sua divindade (CIC 515).

Cristo foi, de fato, o “homem perfeito”, o novo Adão, que viveu uma vida perfeita; mas Ele não a viveu por Si mesmo. Pelo contrário, Cristo a viveu por nós e por nossa salvação. Além disso, “Toda a riqueza de Cristo se destina a todos os homens e constitui o bem de cada um.” (CIC 519). Parte da razão pela qual Jesus viveu Sua vida particular por trinta anos foi para que pudéssemos nos unir a Ele em tudo o que fazemos. Nossas vidas ordinárias podem ter um significado extraordinário. O Catecismo descreve francamente nossa comunhão com Seus mistérios: “Tudo o que Cristo viveu, Ele próprio faz com que o possamos viver n’Ele e Ele vivê-lo em nós. Pela sua Encarnação, o Filho de Deus uniu-Se, de certo modo, a cada homem.” (CIC 521). E assim cabe a nós nos unirmos a Ele em tudo o que fazemos.

Nós podemos estar unidos a Cristo agora mesmo na ordinariedade de nossas vidas, através da humanidade santificadora de Jesus em Sua Encarnação. Cada uma das ações de Jesus foi realizada com o poder salvífico de Deus, infundindo nelas um valor moral infinito, não limitado por tempo ou espaço. Isso faz parte da presente história de amor e talvez seja o terceiro escândalo da Encarnação. Podemos participar dos mistérios de Cristo e Ele pode continuar a vivê-los em nós e através de nós. Se assim o fizermos em comunhão com a Igreja, o menino Jesus de Belém irá nascer de novo em nossos corações e em nossas almas. Assim, também nós, como os pastores, podemos reconhecer Cristo em nosso meio e adorar Sua presença em nossas vidas todos os dias.

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Autor: Brian Kranick

Brian é um escritor que trata sobre tudo o que é Católico. Ele mora com sua esposa e três filhos no Noroeste dos Estados Unidos.

Fonte: Catholic Exchange

Traduzido Gabriel Dias – Membro da Rede de Missão do YOUCAT BRASIL, como Voluntário no Núcleo de Tradução e atualmente também participa do Grupo de Estudo YOUCAT DATING em Brasília – DF.

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