Nossa Senhora de Guadalupe

Você já viu a imagem milagrosa de Nossa Senhora de Guadalupe inúmeras vezes, tenho certeza. Mas você realmente já a viu? Você sabe como interpretá-la? Os segredos que ela contém! (Dica: ela revela toda a glória da Teologia inscrita nos nossos corpos …) E como é apropriado celebrarmos sua festa durante o Advento, enquanto nos preparamos para o Natal.

Há um ano, eu e minha equipe estávamos na Cidade do México, liderando uma peregrinação ao Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, no dia dessa festa gloriosa. Abaixo estão as anotações da palestra que dei aos peregrinos que estavam conosco. Informações específicas sobre o Tilma foram extraídas principalmente do livro: “Our Lady of Guadalupe: Mother of the Civilization of Love” de Carl Anderson e Monsenhor Eduardo Chavez (OLG).

A mensagem da Tilma de Nossa Senhora de Guadalupe proclama que o significado último do corpo não é a morte, mas, na união nupcial com o divino, o corpo está destinado a receber a vida eterna. 

Cristopher West

Uma cultura da imagem

A imagem misteriosa na Tilma é um “código” que, através da interpretação dos símbolos dentro de um contexto cultural específico, falava diretamente aos corações do povo asteca.

1a. De muitas maneiras, a cultura européia pode ser entendida como uma ‘cultura da palavra’, fortemente influenciada por sua dependência na linguagem escrita. … No entanto, os missionários no [México] enfrentaram um povo que era totalmente diferente nesse sentido. Comunicando e registrando verdades antigas através de suas imagens, os índios do Novo Mundo viviam em uma ‘cultura da imagem’. Hoje, temos visto uma mudança significativa em nossa própria cultura, de uma cultura da palavra para uma nova e muito diferente cultura da imagem” (OLG, p. 41).

Ao se colocar em frente ao sol e em pé no centro da lua, a Mulher da Tilma se coloca nas origens da civilização mexicana (a palavra México é derivada de três palavras nativas que significam “no centro da lua”).

  • Os astecas acreditavam que os dias mais curtos desta época do ano (devido ao inverno no hemisfério norte) eram um sinal do deus do sol perdendo na batalha cósmica.
  • No dia 12 de dezembro de 1531 (a última aparição de Maria) foi o dia do solstício de inverno no calendário juliano. A aparição de Maria inaugura a época do ano em que os dias se tornam cada vez mais longos, conquistando a escuridão.

1b. “Os corpos solares eram objetos de grande importância e medo para os astecas, que associavam o sol e a lua a deuses e acreditavam que esses deuses estavam em constante conflito entre si. Temendo que o sol perecesse de alguma forma nessa batalha cósmica, os astecas sustentaram seu deus com sacrifícios humanos destinados a alcançar a harmonia cosmológica e a preservação da vida na Terra. A imagem da Virgem fala especificamente a esse medo, em que o sol e a lua não são mais mostrados como deuses, mas como objetos sob seu governo” (OLG, p. 36).

Os astecas retratavam imagens gráficas do corpo e da morte (sacrifício humano) em sua arte. A mensagem da Tilma proclama que o significado último do corpo não é a morte, mas, na união nupcial com o divino, o corpo está destinado a receber a vida eterna!

  • A compreensão asteca da sexualidade estava intimamente ligada aos ciclos de fertilidade da terra, ao passar das estações, ao plantio e colheita de sementes e à relação fértil entre céu e terra.
  • A mulher grávida na Tilma mostra a verdadeira relação entre a fertilidade humana e a fecundidade da terra (Juan Diego descobriu no árido ambiente de inverno da colina de Tepeyak “um jardim repleto de flores cobertas de orvalho e com o aroma mais doce já sentido”).
  • Ao revelar a relação fértil e conjugal entre o céu e a terra cumprida nela, a Tilma proclama assim a verdadeira Teologia do Corpo … (Juan Diego e sua esposa Maria Lucia foram um dos primeiros casais católicos do Novo Mundo.)

1c. “Na sua imagem milagrosa, a Virgem pega emprestado elementos potencialmente bons e frutíferos da cultura indígena – aquelas ‘sementes da Palavra’ que, até serem desenterradas, permanecem adormecidas em todas as civilizações. Desse modo, ela reafirma esses elementos, ao mesmo tempo em que os purifica e concede a plenitude de Cristo” (OLG, p. 40).

1d. “Para nós, as mãos entrelaçadas da Virgem indicam imediatamente oração (…) Mas ainda mais, para os índios, todo o seu corpo indica que a Virgem estava rezando… Na imagem, a Virgem pode ser vista… em uma posição que indica um passo de dança. Essa era para os índios a forma mais elevada de oração” (OLG, p. 37). A pessoa que ora “procura entrar em união nupcial com o Senhor” (Papa Bento XVI, livro Spirit of the Liturgy, p. 197).

Lendo a Tilma

“As flores são mais do que flores; são símbolos, palavras e conceitos… transmitindo na língua e cultura Nahuatl dos índios os elementos mais fundamentais da mensagem cristã: a relação [conjugal] entre Deus e o homem” (OLG, p. 45).

  • O penteado de Maria mostra que ela é uma VIRGEM.
  • A fita sobre seu útero mostra que ela está GRÁVIDA.
  • A flor de quatro pétalas sobre o útero (jasmim) era o símbolo asteca da DIVINDADE.
  • A cor azul-petróleo de seu manto simboliza o CÉU.
  • A cor rosa de sua túnica simboliza TERRA.
  • O anjo da águia segurando o manto e a túnica indica que o CÉU e a TERRA estão UNIDOS NELA.
  • Sua cor de pele indica que ela é uma MESTIÇA (uma mulher de raça mista: parte asteca e parte espanhola)
  • A flor de oito pétalas simboliza o planeta VÊNUS, conhecido pelos astecas como a “estrela da manhã” e pelos europeus como a deusa romana do amor, beleza e sexualidade (seu símbolo também é o símbolo do “feminino”). A Mulher da Tilma aparece como a Estrela da Manhã que redime o amor, a beleza e a sexualidade humana, abrindo-a para o divino…
  • O grande conjunto de flores se assemelha ao glifo asteca de colinas ou montanhas, o que foi associado ao templo sagrado no centro da civilização asteca.
  • A haste curva corresponde ao glifo asteca de rio,  que representa a vida (também a idéia de dar vida/paternidade).
  • Quando combinados, esses glifos representam a idéia de vida comunitária (comunhão) que varia de significado, desde uma pequena vila de famílias até o conceito nacional mais amplo de CIVILIZAÇÃO.

Juntos, o cacho de flores e o caule revelam a chave para a construção de uma civilização do amor e de uma cultura da vida: os seres humanos florescem tanto quanto se abrem como esta Noiva Virgem se abre ao amor e à vida divinos …

  • Observe que a flor grande também se assemelha a um rosto sorridente.
  • E quando viradas de cabeça para baixo (os glifos deveriam ser lidos sob vários ângulos), a flor e o caule se assemelham a um coração com artérias “conectadas” aos céus, à fonte divina de amor e vida.

2a “Diferentemente dos sacrifícios rituais dos astecas, esse coração sacrifical é mostrado como um coração divino, um coração através do qual o sangue divino flui, indicando o sacrifício e, portanto, o amor de Deus. Com a artéria do coração presa ao manto celestial da Virgem, Deus é mostrado como o verdadeiro doador da vida. Em vez de ser sustentado pelo sacrifício ritual dos astecas, Ele é mostrado como Aquele que sustenta sua criação através do dom de seu próprio sangue que dá vida” (OLG, p. 53).

Observe também que há um desses cachos de flores logo atrás das mãos entrelaçadas de Maria (acima do próprio coração) e logo abaixo da cruz em volta do seu pescoço.

2b. “Nossos anciãos ofereceram corações a Deus [em sacrifícios sangrentos] para que haja harmonia na vida. Esta senhora diz que, sem arrancá-los, devemos colocá-los em suas mãos para que possa apresentá-los ao verdadeiro Deus” (da tradição oral dos índios, veja OLG, p. 55).

Nós temos que nos tornar um código de amor

A mensagem essencial de Nossa Senhora de Guadalupe a Juan Diego (e a todos nós) é um chamado à conversão; um chamado para “distorcer” o que o pecado torceu em nós, para que possamos viver a verdade de nossa humanidade através da verdade sobre o amor, vida e corpo.

3a. “As únicas palavras de orientação espiritual de Nossa Senhora de Guadalupe são seus gentis, mas persistentes, lembretes a Juan Diego sobre o amor: um amor que pode ser confiável, um amor que dá dignidade, um amor pessoal… A mensagem da Guadalupana… é uma educação no amor… Por essa razão, como João Paulo II, pensamos que uma das maiores influências de Nossa Senhora de Guadalupe na história do Hemisfério Ocidental ainda pode estar por vir” (OLG, p. xvi).

3b “Esta mensagem universal [encontrada em Tilma] fala do nosso desejo humano básico por Deus; é a promessa de Deus para nós, feita por meio de sua mãe, que nunca ficaremos sem ajuda. E, como qualquer promessa, sempre tem dois lados: Deus promete nos ajudar, o que ao mesmo tempo exige que O deixemos. O amor – mesmo o amor de Deus – sempre procura ser devolvido. Esse é o relacionamento adequado entre Deus e seu povo” (OLG, p. 56).

3c. “Toda a história de Guadalupe é de transformação: de um continente de derramamento de sangue e sacrifício humano, para um continente [que viu nove milhões de batismos em quinze anos]… Cabe a nós continuar essa sequência de conversões e através da nossa própria conversão se tornar o código que pode trazer conversão para aqueles que nos rodeiam, através do nosso testemunho” (OLG, p. 111).

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Autor: Christopher West

Fonte: The Cor Project

Traduzido por Ludmila Giacone  – Membro da Rede de Missão YOUCAT BRASIL, como Voluntária no Núcleo de Tradução, Formação e participante do grupo YOUFAMILY

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