São Paulo

I

magine que você está partindo para uma longa jornada, por estradas empoeiradas, para prender e matar os membros de um grupo radical que tem ameaçado o seu estilo de vida; pessoas que, na verdade, pensaram que poderiam mudar o jeito que você se relaciona com Deus. Eles têm que ser parados, não importa onde estejam, e não há nada no mundo que possa mudar a sua decisão. Então algo para mudá-la teria que vir do céu: uma voz estrondosa e uma luz cegante que te derrubam no chão talvez resolvam. Aquele (Deus) contra o qual você lutava de repente te pergunta por que você o persegue, então toda a sua vida muda (até mesmo o seu nome!); você nunca pode voltar a ser o que era antes e agora você está, na verdade, entrando para esse novo grupo e proclamando que a vida e a salvação é encontrada em Jesus Cristo.

Todas as luzes brilhantes

Isso é exatamente o que aconteceu com São Paulo na sua jornada para perseguir Cristãos de regiões distantes, antes de se tornar um ávido discípulo que escreveria aquelas cartas famosas às primeiras igrejas do mundo inteiro (pelo menos da parte que ele conhecia).

Dia 25 de Janeiro se celebra a festa em lembrança a São Paulo e é importante relembrar por qual razão o seu relato foi escrito, para que pudéssemos ler e entender a importância que essas palavras contém. Lembre-se que o livro do Atos dos Apóstolos foi escrito como o primeiro relato da Igreja, do Cristianismo. A conversão de Paulo exibe o poder de Deus, a dimensão de até onde Ele iria por sua Igreja e a forma como Ele pode trazer de volta até mesmo aqueles que estão mais distantes Dele. Isso demonstra a graça de Deus e como qualquer um pode se tornar um seguidor de Cristo. O fato é que nós precisamos lembrar disso tanto quanto os primeiros Cristãos. Por quê? Bem, porque a conversão acontece para nós diariamente!

Eu sei: quando foi a última vez que você ouviu que um amigo caiu e ficou cego por causa da voz de Deus? Você provavelmente nunca ouviu. Mas a principal mensagem não é sobre as luzes brilhantes, mas sobre o trabalho interior. E isso é algo que permanece muito real, até mesmo hoje em dia.

Quando nós não recebemos o que esperamos

Se você deseja ouvir uma voz do Céu como aconteceu com São Paulo, eu estou bem aqui levantando minha mão junto com você. Eu peço por isso o tempo todo. E precisa ser algo super claro, porque eu sou teimosa e tenho que estar positiva sobre as coisas desde o início. Eu tenho o péssimo hábito de ficar esperando por grandes momentos e não penso que algo especial pode acontecer no dia a dia. Mas lentamente eu estou aprendendo o quanto isso é errado. 

Nós somos transformados pelos momentos pequenos tanto quando Paulo foi transformado num piscar de olhos. Como? Porque Deus sabe exatamente o que precisa acontecer para que nós mudemos e Ele nos dá oportunidades para isso acontecer. Para alguns pode ser escutar um sussurro inexplicável e trocar de faculdade no meio do ano, sem um plano; ou acordar de uma visão no meio da noite. E para outros, uma série de mudanças, talvez durante um retiro no final de semana, talvez durante dois anos. Sempre vai ser algo diferente, então não tente comparar a sua história de conversão com a dos outros.

Frequentemente nós confundimos conversão com um sentimento. Na verdade, não é a emoção que você sente durante a melhor música de adoração do ano. Não é a sensação que você tem durante um retiro que te faz ter certeza de que, quando você for para casa, você é capaz de qualquer coisa. E certamente não é o contentamento depois que todas as suas orações são respondidas e você pensa “talvez a vida não seja tão ruim no fim das contas”. Conversão é ser capaz de fazer algo com o amor que você tem por Deus.

E eu?

Como uma católica desde o berço, eu escuto história de como outras pessoas se converteram. Belas histórias sobre retornar para a fé depois de anos distante, ou ir a missa pela primeira vez e ter certeza de que gostaria de ser parte da Igreja e mudar de vida em um ano. Eu sempre pensei que eu nunca teria uma experiência como essas. Como isso poderia acontecer? O que eu não percebi é que, novamente, a conversão é diferente para todo mundo. Conversão não significa que você tem que adotar uma nova fé, significa que algo está se movendo dentro de você e que você está indo na direção de uma realidade mais nova ou mais profunda. É sobre o seu relacionamento com Deus e se aproximar Dele: momento que você pode ter no seu dia a dia.

Uma das minhas formas favoritas de reconhecer esses momentos é mantendo um diário de oração. Pode parecer difícil ver como você está crescendo, um diário de oração é a forma perfeita de olhar para trás e ver quão longe você já foi. Às vezes é necessário olhar para onde você começou para perceber que você mudou, do seu próprio jeito, para quem você é agora.

Outra forma muito boa é tirar algum tempo em silêncio numa adoração ao Santíssimo para refletir sobre si mesmo. Se pergunte – e a Jesus também – algumas questões difíceis sobre o que você tem feito recentemente. Isso pode te ajudar não só a perceber áreas da sua vida em que você pode precisar mais da presença de Deus, mas também para ser grato por tudo o que Ele já fez por você.

Sempre em frente

Não basta apenas não voltar atrás, nós precisamos continuar indo para frente. Nos meses que antecederam a minha Crisma, eu fiz tudo o que eu pude para me preparar, até mesmo ler a Bíblia inteira em um ano. Mas depois que eu recebi o sacramento, eu parei. Meus planos não iam além do que eu já tinha feito, então eu me encontrei em um período de aridez e eu não sabia o porquê. Levei quase dois anos para descobrir que eu estava tão errada por não ter continuado implacavelmente o meu progresso espiritual.

Parece óbvio agora, mas não era na época. Eu estava em uma boa posição. Até diria que eu estava caminhando firme. Mas o lance sobre Cristo é que nós não somos chamados para sermos simplesmente “fortes”. Você percebeu que o livro dos Atos dos Apóstolos passa meros vinte versículos (Atos 9, 1-20) detalhando como Paulo foi de perseguidor da Igreja a proclamador do nome de Jesus nas sinagogas? Todo o resto gira em torno do desenvolvimento contínuo da Igreja, porque esse é o real objetivo da conversão: um chamado para manifestar a vontade de Deus na Terra até que estejamos junto Dele na próxima vida.

No entanto, nós não podemos conhecer essa vontade se não conhecermos o Criador. É por isso que a conversão sempre é sobre nosso relacionamento com Deus e continuamente nos aproximarmos Dele. Isso nem sempre vai se parecer com uma linha reta, porque às vezes nós temos nossos altos e baixos. Mas o nosso foco tem que estar Nele. Às vezes, nenhum sentimento maravilhoso acompanha isso. Às vezes, nós temos que manter nossa vontade e confiar no tempo de Deus.

A conversão que acontece no nosso dia a dia nem sempre vai estar acompanhada de luzes brilhantes e vozes. Às vezes é apenas um sussurro silencioso profundo que te guia para fazer a coisa certa, ou é a sua determinação de melhorar o seu relacionamento com Cristo. Isso não acontece uma vez e acaba para sempre. Nós somos chamados a seguir em frente de novo e de novo; e a parte mais importante não é o momento em que nos sentimos mais fortes, mas o que nós escolhemos fazer por Deus com nossas vidas.

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Autor: Niki Mallinak

Fonte: Life Teen

Traduzido por Angela de Oliveira – Membro da Rede de Missão do YOUCAT BRASIL, como Voluntária nos Núcleos de Tradução e Comunicação.

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