Inspirados na Bíblia Grega e Latina, são chamados de salmos, os cânticos sagrados. Com mais propriedade, os Hebreus os chamam hinos. São poesias religiosas de temas diversos e em sua maioria são petições e louvores a Deus. Uma das formas de classificar os salmos é pelo seu gênero literário. Do ponto de vista estilístico, se distinguem em três categorias. Os salmos estão divididos em hinos, súplicas e as ações de graça (SPADAFORA, 1959, p.531).

O tema que mais nos interessa neste artigo é o “Escondimento de Deus”. A teologia cristã afirma que a busca do homem por Deus é na verdade precedida de uma busca de Deus pelo homem. Deus se antecipa neste relacionamento. Dá ao homem a graça de se abrir a Ele, por meio de um desejo insaciável. Antes de homem pensar em Deus, deve haver uma iluminação interior que mesmo sendo imperfeita é a causa de todas as buscas e orações.

O tema do escondimento se relaciona perfeitamente com o tema da busca. É de se esperar que encontremos o que procuramos, mas particularmente em relação a Deus, que encontremos o que Deus quer Revelar. Neste sentido, podemos pensar que o Escondimento de Deus não se trata de um vazio em sua Revelação, como um espaço que não foi preenchido e por isto buscamos e não encontramos. Mas pensemos que este escondimento ou este silêncio divino, seja na verdade, uma das maneiras com Este mesmo Deus encontrou para se Revelar.

Como é possível Deus dar ao homem o desejo de procurá-lo e em algum momento, se esconder? Talvez a nossa resposta seja exatamente o que descrevemos no parágrafo anterior. O esconder de Deus é também parte de sua Revelação. É esta a ideia que vamos tentar demonstrar ao longo das páginas seguintes. A nossa hipótese é que o silêncio é lugar onde está guardado o seu mistério.

A súplica é a forma de oração que mais expressa a certeza de que Deus nos escuta. O diálogo é um modo sublime de oração em que aquela que fala, não somente comunica o seu ‘eu’, como também se encontra como o ‘eu’ do outro. O diálogo não pode ser visto somente como uma troca de palavras, mas como um itinerário de ouvir, encontrar, relacionar, conhecer e finalmente transformar o outro ser (RATZINGER, 2012).

A súplica é a forma de oração que mais expressa a certeza de que Deus nos escuta.

“Com a minha voz clamei a Deus; com minha voz, a Deus, e ele me ouviu” (Sl 77, 2). O salmista tem a certeza de que Deus o escuta. É preciso deste espaço de silêncio em que o interlocutor expõe suas ideias e seja entendido. É fundamental que haja de uma das partes um silêncio e em seguida, o outro possa falar. Se de um lado o homem suplica, do outro lado Deus o escuta. Se do lado de Deus há um silêncio é porque Deus está manifestando o mistério de que além de um Deus que age na história é um Deus que também escuta.

A súplica se torna o lugar para o diálogo, em que Deus se encontra com o homem. E neste diálogo o homem compreende mais perfeitamente a Deus que se Revela. O salmo 77 é um lamento coletivo em que alguém externaliza sua imensa angústia quando Deus nada fez para seu povo “Seu amor se esgotou para sempre?”. O próprio salmista reconhece, porém, que a certeza de Deus foi dada outrora muitas vezes aos patriarcas.

Na segunda metade do salmo, são recitados os feitos divinos que deram existência a Israel. O relato é feito em um contexto litúrgico onde Richard J. Clifford nos diz que ‘relembrar’, ‘repetir’ e ‘volto a pensar’ (v. 12 e 13 – TEB) significam ‘recitar’ e é uma forma de despertar a fé na comunidade. (cf. DIANNE, 1999). A bíblia da CNBB nos trás o texto como “Mas vou lembrar-me das obras do Senhor, vou lembrar-me das tuas maravilhas desde o início. Vou considerar todos os teus feitos, meditar as suas proezas” (v. 12 e 13) e nos aponta o paralelo do Sl 143, 5 em que o trinômio ‘lembro-me’, ‘medito’ e ‘considero’ também é usado.

Segundo o comentarista da Bíblia do Peregrino, o texto apresenta um quarteto, representado pela frases:

Recordo as proezas do Senhor” (12a)

“sim, recordo teus antigos portentos” (12b)

medito em todas as tuas obras” (13a)

considero em tuas façanhas” (13b)

As diferentes traduções mostram termos distintos, mas algo que podemos notar são as quatro repetições que nos convidam à lembrança e a meditação. No hebraico, os termos ‘lembre-se’ e ‘recordo’ (v.12 – Bíblia de Jerusalém) são a mesma palavra. As palavras ‘medito’ e ‘considero’ são outras duas palavras. O que nos interessa, porém, é identificar a intensidade deste clamor representado pelo quarteto de frases.

Ainda no Comentário Bíblico, o autor nos diz que o paralelo v. 143, 5 expressa um clamor mais intenso do que podemos encontrar na tradução. Seria algo equivalente a ‘recitar em alta voz’. O autor do salmo acrescenta à recordação a meditação. Ao recordar é necessário também que se medite as maravilhas de Deus.

Nesta dinâmica de recordação e meditação podemos observar que diante do silêncio de Deus o salmista é convidado a buscar esperança em suas memórias. Nesta busca, provocada pelo silêncio divino, encontra características que são próprias de Deus. Ao recordar a história, o homem lembra “Tu és o Deus que realiza maravilhas” (v. 15) e que “Guiaste teu povo como um rebanho” (v. 21). A providência divina é fato que marca a história.

Nesta dinâmica de recordação e meditação podemos observar que diante do silêncio de Deus o salmista é convidado a buscar esperança em suas memórias.

A esperança do salmista revela que tem sentido insistir com Deus mesmo diante do silêncio, pois é “por causa do teu amor” (Sl 44, 27) que a súplica permanece viva e forte na voz do suplicante. A certeza do amor de Deus é passada de geração em geração “Ó Deus, nós ouvimos com nossos ouvidos, nossos pais nos contaram” (Sl 44, 2).

As perguntas sobre a presença de Deus levam o interlocutor a meditar sobre sua própria condição. É o próprio Deus que põe essas perguntas em nossos lábios e em nosso coração. Deus espera que perguntemos e chamemos por Ele, pois neste súplica se encontra, como bem já colocamos, a base para a oração. As perguntas são importantes, pois por um lado referem diretamente ao modo como Deus se revela. Os questionamentos explicitam o que o autor espera de Deus “Nunca mais será favorável?” (Sl 77, 8b) ou ainda como se questionasse como devesse agir “Deus esqueceu-se de ter piedade ou fechou as entranhas com ira?”. São como que retóricas em que se clama a Deus por algo que o salmista já conhece.

As perguntas sobre a presença de Deus levam o interlocutor a meditar sobre sua própria condição.

Por outro lado, a pergunta revela a dificuldade que temos de capturar a proximidade de Deus. Seja por conta da condição própria e humana do pecado, “Quem pode ficar de pé no seu lugar santo? Quem tem mãos inocentes e coração puro” (Sl 24, 3). Somente pode ter esta proximidade de Deus aquele “fala a verdade no coração, e não deixa a língua correr” (Sl 15, 2). Ou por conta de uma experiência necessária que Deus quer todos nós passemos. A vida de fé e da graça não tornam Deus evidente. Todos nós somos convidados a fazer esta experiência do silêncio mesmo que sejamos justos e estejamos na fidelidade. O convite do salmista é para que tenhamos um firme confiança em Deus, “Espera em Iahweh, sê firme! Fortalece teu coração e espera em Iahweh!” (Sl 27, 14).

A pergunta se torna reveladora. E sem o silêncio não há espaço para perguntas e nem mesmo diálogo. O leitor, ao se deparar com o texto bíblico, aprende o modo como deve buscar a Deus e o que se pode esperar dEle. O salmista, conhece a Deus, clama por socorro, nos recorda que Deus é aquele que escuta e espera de nós que nos coloquemos em oração.

A pergunta se torna reveladora. E sem o silêncio não há espaço para perguntas e nem mesmo diálogo.

Recordar do passado é como uma ponte que liga a situação atual do salmista com a alegria de um futuro em Deus. Se por uma parte há o contraste da desgraça presente, por outra parte acende a esperança de que se repetirá conforme a história. Deus se manifesta neste silêncio como aquele que dá esperança e que não vacila no socorro daqueles que o temem. Recordemos o esforço de memória do Sl 77. Ben Sira aconselha esse tipo de recordação (Eclo 2):

“Confia no Senhor, ele te ajudará; endireita teus caminhos e espera nele” (v. 6).

“Considerai as gerações passadas e vede: quem confiou no Senhor e ficou defraudado? ou quem perseverou no seu temor e foi abandonado? ou quem clamou por ele e ele o desprezou?” (v. 10).

Santo Agostinho, em seus comentários aos salmos, nos sintetiza nas seguintes palavras: “Não nos tornaremos como seus pais, geração má e provocadora se não nos esquecermos destes fatos, mas poremos em Deus nossa esperança, e não formos ingratos a sua graça” (Comentário ao Salmo 77, 12). Nesta busca por Deus, encontramos um caminho de lembrar, meditar e recitar (em alta voz a Deus). O silêncio nos conduz a esta revelação do que Deus espera de nós em nosso modo de orar e também o que podemos esperar de Deus. E a esperança que surge em nós é consequência de um coração que lembra que “Tu és o Deus que realiza maravilhosa” (v. 15).

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REFERÊNCIAS

DIANNE, Bergant; KARRIS, Robert J. (Orgs.). Comentário Bíblico vol. 2.São Paulo: Edições Loyola, 1999, p. 81.

RATZINGER, Joseph. Natureza e Missão e da Teologia. Rio de Janeiro: Vozes, 2008.

SANTO AGOSTINHO, Comentários aos Salmos (Salmos 51-100). Trad. Monjas Beneditinas. São Paulo: Paulus. 1997.

SCHOKEL, LUÍS ALONSO. Salmos II : Salmos 73-150. São Paulo: Paulus, 1996.

SPADAFORA, Francesco (Org.). Diccionario Bíblico. Barcelona: Editoral Litúrgica Española, 1959, p. 531.

TOZER, A. W. La Busqueda de Dios. Disponível em: <http://www.tesoroscristianos.net/autores/A%20W%20Tozer/La%20Busqueda%20de%20Dios.pdf>. Acesso em: 25 Jul 2019.

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