anjos da guarda

I

magine que você tenha um guarda-costas que anda sempre com você. Ele faz coisas que todo guarda-costas costuma fazer, como te proteger dos perigos, afastar os agressores e, de modo geral, velar pela sua segurança em todas as situações. Mas ele ainda faz mais que isso: oferece uma direção moral, te ajuda a tornar-se uma pessoa mais forte, e te conduz ao fim último de sua vida.

Nós não precisamos imaginar isso. Nós, de fato, temos um guarda-costas assim. A tradição cristã os chama de ‘anjos da guarda’. A existência deles é atestada pelas Sagradas Escrituras e tanto católicos quanto protestantes acreditam neles.

Mas, frequentemente, somos negligentes e deixamos de recorrer a esse grande auxílio espiritual (eu, pelo menos, sou muito culpado disso!). Entender os auxílios dos anjos da guarda nos fará melhor apreciar aquilo que eles fazem por nós.

Aí vão 20 exemplos:

1. Afastam os demônios

Às vezes, pensamos a tomada de decisão sobre algo moral como sendo um debate entre um anjo mal, sussurrando em um ouvido, e um anjo bom, dizendo coisas sábias em outro. Há alguma verdade nisso: de acordo com São Tomás de Aquino, um dos papéis dos anjos da guarda é lutar contra os demônios (Summa Theologica, Parte 1, Questão 113, Artigos 2-6).

2. Protegem-nos dos perigos

Os anjos da guarda nos protegem dos perigos espirituais e temporais, de acordo com São Tomás de Aquino (Questão 113, Artigo 5, Resposta 3). Essa crença está firmada nas Escrituras. Por exemplo, o Salmo 91, 11-12 diz: “Porque aos seus anjos ele mandou que te guardem em todos os teus caminhos; eles te sustentarão em suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra”.

3. Fortalecem-nos contra a tentação

Os anjos da guarda não só nos afastam do mal, mas também nos fortalecem, para que nós mesmos possamos nos afastar do mal. Como diz São Bernardo em um sermão: “Portanto, sempre que uma tentação mais grave pesa sobre você e está com dificuldades na luta, chame seu anjo da guarda, seu líder, seu auxílio nas dificuldades, em suas tribulações; grite por ele e diga: ‘Senhor, salvai-nos, estamos perecendo!’”.

4. Encorajam-nos

São Bernardo também diz que, com tais anjos ao nosso lado, não precisamos ter nenhum medo. Deveríamos ter a coragem de viver nossa fé de modo ousado e confrontar qualquer coisa que a vida coloque em nosso caminho. Ele diz: “Por que teríamos medo se estamos com esses guardiões? Aqueles que nos mantêm no caminho não podem ser vencidos ou enganados, e muito menos, enganar. Eles são fiéis; eles são prudentes; eles são poderosos; do que teríamos medo?”.

5. Intervém, de forma milagrosa, para nos salvar do perigo

Os anjos da guarda não apenas “guardam”, mas também podem nos salvar quando já estamos em perigo. Isso pode ser ilustrado pela história de Pedro em Atos dos Apóstolos, 12, quando um anjo ajuda a tirar o apóstolo da prisão. A história sugere ser o seu próprio anjo da guarda que intervém (confira o versículo 15). É claro, não podemos pressupor milagres assim. Mas é um conforto adicional saber que eles são possíveis.

6. Guardam-nos desde o nascimento

Os Padres da Igreja, certa vez, debateram se os anjos da guarda estão conosco desde o nascimento ou a partir do batismo. São Jerônimo argumentou, de forma decisiva, pela primeira afirmativa. Ele estava embasado em Mateus 18, 10, que é uma passagem crucial nas Escrituras que embasa a existência dos anjos da guarda. Nesse versículo, Jesus diz: “Guardai-vos de menosprezar um só destes pequeninos, porque eu vos digo que seus anjos no céu contemplam sem cessar a face de meu Pai, que está nos céus”. A razão pela qual recebemos anjos da guarda desde o nascimento é que sua ajuda está associada à nossa natureza enquanto seres racionais, e não apenas à ordem da graça, de acordo com São Tomás de Aquino (Questão 113, Artigo 5, Resposta).

7. Guardam todos – inclusive aqueles que não creem

A conclusão disso se segue do parágrafo anterior. São Tomás de Aquino também deixa isso claro ao explicar que Deus nunca deixa nenhum de nós, incluindo os pecadores. Como o grande teólogo dogmático Ludwig Ott explica, “De acordo com o ensinamento geral dos teólogos, contudo, não apenas as pessoas batizadas, mas todos os seres humanos, incluindo os descrentes, tem seu próprio anjo da guarda desde o nascimento”. O Papa Bento XVI também ensinou que os anjos da guarda são “ministros do cuidado divino para todo ser humano”.

8. Recordam-nos da dignidade da pessoa

Isso pode ser extraído de tudo o que já foi dito. É particularmente evidente em Mateus 18, 10, quando Jesus nos instrui a não ‘menosprezar’ os ‘pequeninos’, porque seus anjos cuidam deles (agradeço particularmente ao pregador protestante John Piper por ressaltar isso). Como São Jerônimo afirma, “o valor das almas é tão grande que, desde o nascimento, cada um de nós é assistido por um anjo que nos protege”. Piper enfatiza o modo como a presença dos anjos da guarda deve causar em nós um profundo respeito por todos os cristãos: “Assim, não desprezem esse simples e inexpressivo discípulo de Jesus! Permitam que a presença angélica te recorde de quem ele é filho”.

9. Lembram-nos do cuidado de Deus por todos

São Tomás de Aquino explica o modo como os anjos cooperam de acordo com o plano providencial de Deus para com todos os homens (Questão 113, Artigo 6, Resposta). Segue-se que esses anjos servem como um lembrete do Seu cuidado por nós.

10. Levam nossas necessidades a Deus

Jimmy Akin diz que os anjos da guarda atuam como intercessores que levam nossos pedidos diretamente a Deus, com base nas palavras de Jesus em Mateus 18, 10, sobre o fato de os anjos contemplarem a face de Deus.

11. Levam-nos para mais perto de Deus

Isso se segue do que está dito acima, a respeito de os anjos da guarda nos levarem para mais perto de Deus. Ainda quando Deus parece distante, lembre-se de que o anjo da guarda foi designado pessoalmente a você, e que ele está, ao mesmo tempo, contemplando diretamente a Deus, como afirma a Catholic Encyclopedia.

12. Movem-nos para Deus

Os anjos da guarda também nos movem para Deus. Como escreve São Tomás de Aquino: “É manifesto, além do mais, que, no que diz respeito às coisas que devem ser feitas, o conhecimento e a afeição humanos podem variar e falhar de muitas maneiras; portanto, era necessário que os anjos fossem designados para a guarda dos homens, a fim de inspirá-los e movê-los em direção ao bem”. Isso incluiu nos estimular a realizar boas obras, de acordo com São Tomás de Aquino (confira a Questão 113, Artigo 1, Resposta, e Artigo 4, Objeção 3).

13. Reforçam os mandamentos de Deus

Segundo São Tomás de Aquino, um dos papéis de nosso guardião angélico é nos ajudar a usar a razão a fim de alcançar virtudes. Em particular, ele diz que os anjos nos ajudam a desenvolver a prudência enquanto servimos às “instruções universais” de Deus, transmitindo-nos seus preceitos (Questão 113, Artigo 1, Resposta 2).

14. Iluminam a verdade

Os anjos “propõem a verdade inteligível aos homens” por meio de coisas sensíveis, de acordo com São Tomás de Aquino (Questão 111, Artigo 1, Resposta). Apesar de ele não se alongar nesse ponto, é um ensinamento básico da Igreja que o mundo material aponta a realidades espirituais invisíveis. Como São Paulo diz em Romanos 1, 20, “Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras; de modo que não se podem escusar”.

15. Fortalecem nossas mentes

Um segundo modo pelo qual os anjos nos iluminam, diz São Tomás, é fortalecendo nossos intelectos. Ele afirma que “O intelecto humano, sendo inferior, é fortalecido pela ação do intelecto angélico” (Questão 111, Artigo 1).

16. Comunicam-se pela nossa imaginação

Além de atuarem por meio de nossos sentidos e intelecto, nossos anjos da guarda influenciam-nos também por meio da imaginação, de acordo com São Tomás de Aquino, que exemplifica com os sonhos de José (Questão 111, Artigo 3, o Contrário e a Resposta). Mas pode não ser algo tão óbvio como um sonho; pode ser também através de meios sutis, como uma “imagem interior”, que pode ser definida como uma imagem trazida aos nossos sentidos ou imaginação (Questão 111, Artigo 1, Resposta; definição adotada pelo Dictionary of Scholastic Philosophy de Bernard Wueller, SJ).

17. Influenciam nossas vontades

Os anjos não podem diretamente mover nossa vontade, mas, de acordo com São Tomás, eles podem indiretamente influenciá-la por meio de nossos sentidos e intelecto, como afirmado acima (Questão 111, Artigo 2, Resposta). Isso significa que nossos anjos da guarda influenciam todas as dimensões de nossos ser para o melhor – nossos sentidos, intelecto e vontade.

18. Auxiliam-nos em nossa salvação

O fim último de todos os anjos da guarda é ajudar-nos na salvação, de acordo com o santo. “Os anjos são enviados para ministrar, e de maneira eficaz, para aqueles que receberem a herança da salvação, se considerarmos o fim último de sua proteção, que é a realização dessa herança”, escreve São Tomás de Aquino (Questão 113, Artigo 5, Resposta 1). Ele extrai isso de Hebreus 1, 14, que diz: “Não são todos anjos espíritos a serviço de Deus, que lhes confia missões para o bem daqueles que devem herdar a salvação?”.

19. Lembram-nos de nosso fim último

Inspirado pelas palavras de Cristo em Mateus 18, 10, Santo Agostinho sugere que os anjos da guarda nos recordam que nosso fim último é a visão beatífica de Deus:

Assim como eles veem, nós também devemos ver; mas ainda não vemos. Como o apóstolo usa as palavras citadas há pouco, agora nós vemos como que por um espelho, de maneira confusa; mas depois veremos face a face. Essa visão é reservada como recompensa para nossa fé; e sobre ela o apóstolo João diz que, quando Ele aparecer, seremos semelhantes a Ele, porque O veremos como Ele (1 Jo 3, 2). Através da face de Deus, entenderemos sua manifestação de modo integral, e não apenas em partes (Cidade de Deus, Livro 22, Capítulo 29).

20. Nunca nos deixam

Os anjos da guarda assumem seus deveres em nosso nascimento e os mantêm até a nossa morte. Para São Tomás de Aquino, essa é uma extensão de uma verdade mais ampla que é nunca abandonarmos completamente os cuidados de Deus, ainda que em pecado ou imersos em dúvidas: 

Agora, torna-se evidente que nem o homem, nem nada, pode se escusar da providência de Deus: desde que algo participe do ser, já se torna objeto da providência, que se estende sobre todos os seres. Na verdade, diz-se que Deus abandona o homem, de acordo com a ordem de Sua providência, mas somente na medida em que Ele permite que o homem sofra por algum defeito ou pecado. Da mesma forma, pode ser dito que o anjo da guarda jamais abandona completamente alguém… (Questão 113, Artigo 6, Resposta).

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Autor: Stephen Beale

É um escritor que mora em Providence, Rhode Island. Cresceu como Protestante evangélico e se converteu ao Catolicismo.

Fonte: Catholic Exchange

Traduzido por Tiago Veronesi Giacone – membro da Rede de Missão do YOUCAT BRASIL, servindo nos Núcleos de Tradução, Formação e também participante do Grupo de Estudo YOUFAMILY em Brasília – DF.

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