Ricos em Deus

1. INTRODUÇÃO

Nos evangelhos encontramos por parte de Jesus, diversas exortações e admoestações sobre o dinheiro. No chamado discurso da montanha do evangelho de Mateus, o Senhor adverte categoricamente: “Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro …” (Mt 6,24). Neste lugar o Senhor deixa claro que o dinheiro é um ídolo, ou seja, algo que tem sido considerado pelo homem como “deus”, em outras palavras, é um “senhor” (amo) que domina e exerce um poder entre os homens. A humanidade, portanto, se vê numa encruzilhada: reconhece a Deus e o serve ou idolatra o dinheiro do qual se torna escravo. Esta admoestação é seguida por uma preciosa catequese sobre a relação do homem com o dinheiro, já que os discípulos no reino de Deus à luz da fé reconhecem a graça da providência divina: “não se preocupem com o que vão comer, beber ou vestir…”, porque seus interesses e preocupações são outros: “Sobretudo buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não vos inquieteis, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.” (Mt 6,34).

No evangelho de Lucas aparece uma explicação à proposta acerca da novidade do reino de Deus, já que o Senhor deixa claro para todos os que querem segui-lo: “Assim, pois, qualquer de vós que não renuncia a tudo quanto tem, não pode ser  meu  discípulo” (Lc 14,33). Neste caso Jesus se refere aos bens que normalmente são fruto do trabalho, portanto, do dinheiro que uma pessoa adquiriu ao longo de sua vida. Estas palavras na época causaram muito escândalo e em cada momento da história deixaram a comunidade eclesial com seus ouvintes muito desconcertados: Porque? O que pretende o Senhor com esta frase tão dura? Que fiquemos sem nada e sejamos todos pobres? Qual é o problema do Senhor com o dinheiro e as riquezas? Esta afirmação faz parte – no conjunto do evangelho– das condições necessárias para poder ser discípulos do Senhor e seguir (viver) a mensagem cristã: negar-se a si mesmo (combater o egoísmo inato do ser humano), tomar a cruz de cada dia (a realidade que nos acompanha com suas luzes e sombras e nos afeta e faz sofrer) e segui-lo (caminhar por suas pegadas luminosas fazendo o bem) (Cf. Lc 9,23). O cristão recebe a graça da conversão, para que além dessas três condições se relacione de uma nova forma com o dinheiro.

Finalmente, encontramos uma cena acerca de um encontro de Jesus com um homem, na qual também aparece uma referência direta ao tema do dinheiro. Esta passagem bíblica foi denominada o jovem rico. Um jovem se aproxima do Senhor e se põe de joelhos em atitude de adoração e lhe pergunta o que deve fazer para ter a vida eterna. Jesus aproveita a ocasião e menciona os mandamentos, mas a partir da sexta norma da lei: “não matarás” – talvez esta omissão do primeiro, “amarás o Senhor sobre todas as coisas” seja de propósito – já que como vemos no desfecho do encontro, o jovem ficou desmascarado, pois não amava a Deus como professa o Shemá de Israel, e a proposta de “vender os bens e dá-los aos pobres” por parte do Senhor, o deixou entristecido porque possuía muitos bens e não queria desfazer-se deles. Para este jovem rico o dinheiro era seu deus (ídolo) e, apesar de suas boas intenções e aparente moralidade impoluta, a idolatria reinava em seu coração.

2. EVANGELHO

No fragmento que a liturgia da Igreja nos propõe neste domingo, o ensinamento do Senhor se deve a um fato concreto e a um pedido incomum: “Disse uma pessoa do público a Jesus: Mestre, diz a meu irmão que reparta comigo a herança”.  Podemos imaginar sem nenhum problema um sério drama familiar: uma herança e um homem que termina sendo prejudicado por seu irmão que ficou com tudo e por isso também podemos supor no que fez o pedido, sentimentos de ressentimento e vingança. A resposta do Senhor é lapidar: “quem me nomeou juiz ou repartidor entre vós?”. Jesus não veio para ser juiz entre os homens, nem para resolver problemas econômicos, sua missão é muito mais importante: fazer presente a salvação oferecida por Deus em e através do seu amor.

Não obstante, esta situação se presta para que Jesus faça uma catequese por meio de uma parábola sobre o dinheiro e os bens e, consequentemente, a respeito do pecado capital relacionado com este assunto, a avareza: “E disse-lhes: Acautelai- vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qualquer um não consiste na abundância do que possui”. A parábola é breve e narra a insensatez de uma pessoa que, após o sucesso de sua colheita, nota que está ficando mais rico e decide acumular seus bens, mas não considera o mistério da morte no horizonte de sua existência, porque pensa que a vida é somente ter e desfrutar. Este homem não teve em conta a regra número um da existência humana: somos seres precários e não temos nenhuma segurança, a não ser o fato de que algum dia partiremos ao encontro com o Pai através do momento da chegada da morte.

Jesus nos evangelhos não condenou e atacou o dinheiro, senão a forma como o homem se relaciona com ele. Todas as exortações do Senhor ocorrem porque, inicialmente é o ídolo por excelência dos homens e depois, porque está por trás de todos os males e sofrimentos humanos. O Senhor enfatiza: “Olhai: Acautelai-vos e guardai-vos da avareza”.

Que é a avareza? É o mesmo de ganância? A primeira expressão é definida como um desejo veemente de possuir muitas coisas, ou seja, bens e dinheiro para si mesmo; à luz da fé é um desejo desordenado. Embora pareçam, a ganância – que é também um sentimento desordenado – indica sobretudo acumular riquezas para entesourá-las, por isso para a Tradição cristã ambas constituem um pecado capital. São Paulo afirma na primeira carta a Timóteo: “Porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos  os males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores” (6,10).

 

3. ATUALIZAÇÃO CATEQUÉTICA

Deste evangelho proclamado pela Igreja em todas as assembléias eucarísticas, podemos fazer algumas reflexões pertinentes para nossa vida e experiência de fé:

Interpretação marxista do evangelho: A ideologia marxista –entre outras coisas– é uma corrente filosófica com sérias repercussões sobre a sociedade não somente no âmbito econômico. Sua aplicação pretende criar uma sociedade sem desigualdades e diferenças, porque para esta visão fundamentalmente, o problema do homem se deve às injustas estruturas sociais das que é vítima. Porém é importante recordar que, para a fé cristã o drama do sofrimento humano está na realidade do pecado que se aninha em seu coração.

Nos anos oitenta surge na Igreja uma dimensão teológica chamada teologia da libertação a que muitos teólogos, pastores e fiéis aderiram, dadas às escandalosas condições sócio-econômicas na América Latina. Não podemos deixar de notar que a sensibilidade pelos pobres e a voz profética da Igreja de Cristo sobre este assunto é algo que tem estado sempre na estrutura diaconal da comunidade eclesial, mas o uso da ideologia marxista criou enormes problema na praxis e na doutrina da Igreja. Dizemos isto, porque as passagens bíblicas que mencionamos sobre o dinheiro tem sido manipuladas por esta interpretação dentro da Igreja, e esta teologia da libertação chegou a afirmar que Jesus de Nazaré tinha uma proposta social parecida ou foi confundida com o marxismo, mas lamentavelmente tal iniciativa acabou frustrada por sua morte na cruz.

O dinheiro como causa de todos os males: Não é necessário ter muita perspicácia para notar que, na maior parte dos problemas da humanidade, se esconde a ambição pelo dinheiro, definitivamente, pelo amor ao deus deste mundo. Os flagelos que afetam nossa sociedade: a guerra, a máfia, a corrupção, o narcotráfico, o tráfico humano, a prostituição, etc., e todas suas consequências: violência, injustiça e negligência de uma ou de outra maneira, está sempre relacionada com “mamona” (o dinheiro). Isto no âmbito social, mas em muitos lugares a realidade não é diferente, já que tantas famílias tem sido destruídas ou feridas seriamente por problemas com o dinheiro, heranças como no caso do evangelho, disputas e muitos ódios e divisões. A “catequese” que, direta ou indiretamente recebem os filhos de seus pais é o amor ao dinheiro: “estudar para ser alguém e ganhar muito dinheiro”; o problema não é o dinheiro e sim a perspectiva que se dá ao fruto do trabalho do homem.

A relação do homem com o dinheiro: À luz do evangelho, o seguidor da mensagem de Jesus em virtude da conversão do coração, adquire uma nova maneira de relacionar-se com o dinheiro. O dinheiro sempre será um problema, porque é o verdadeiro inimigo de Deus – não é o maligno que engana e seduz, pois foi vencido na cruz – já que se coloca como aparente solução a todos os dramas do homem. O cristão, portanto, deve ter a consciência que tinha São Paulo “aprendi a viver na abundância e na escassez” (Fp 4,12) ou como complementava Santa Teresa de Jesus em seus escritos espirituais: “Quando perdiz, perdiz, quando penitência, penitência”, em outras palavras, o dia que se pode comer bem, bendito seja Deus e o dia que não é para isso, se oferece isso ao Senhor e se faz penitência. Ou seja, livres para gastar, livres para economizar, livres para desfrutar e divertir-se e livres para ajudar aos que mais necessitam.

A liberdade do cristão com o dinheiro: A liberdade com o dinheiro é um dom que recebe o homem a partir de seu encontro pessoal com Cristo. Os homens vivem para ter e fazer dinheiro, o cristão, ao contrário, tem dinheiro para viver. Se realmente Deus está em nosso coração, o combate com o dinheiro que se dá talvez todos os dias, é vencido pela graça divina utilizando-o para viver com dignidade e não fazendo dele senhor de nossa existência. É bom recordar que, neste combate nos servimos da esmola e da ajuda que fazemos aos mais necessitados para purificar nosso espírito da cobiça e avareza.

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AUTOR: Pe. Carlos Fernando Hernádez Sánchez (Mestre e Doutorando em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana – Roma e professor do Seminário Arquidiocesano em Brasília-DF))

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