Trabalho um Ato de Adoração

A vocação dada por Deus ao homem perdeu seu total sentido? Veja à sua volta. Você vive em um mundo que perdeu a . A religião foi substituída por trabalho e conquistas. Num mundo como este, o homem leva o trabalho muito a sério. Ele não quer nada além da perfeição. Assim, seu objetivo e seu modelo de julgamento é a eficiência. Consequentemente, o homem não é julgado pelo que é, mas sim pelo que ele pode fazer. Não é de se admirar que a economia mundial oscile. Ela perdeu seu centro de gravidade.

A sua vocação primeira, assim como de todo ser humano, é ser, não fazer. A sua vida deve mirar na santidade, não na eficiência. Deus e a piedade Dele, não a produtividade, é o seu objetivo, porque você tem uma alma imortal; você não é uma máquina. Todo trabalho e toda profissão, mesmo o mais alto cargo, nada mais é do que o meio do homem expressar sua integridade interior e buscar mais a santidade; nenhum deles jamais deve se tornar o ídolo do homem ou sua total absorção.

Agora você encara verdades que foram terrivelmente distorcidas no seu tempo. Alinhe-as novamente para que você possa viver vinte e quatro horas por dia como um ser humano, um filho de Deus, e não mais gastar grande parte da sua vida na Terra como um robô que faz absolutamente de tudo para sobreviver, mas que realmente só espera a hora de finalmente sair e voltar para casa.

Perceba primeiramente que enquanto todas as pessoas foram criadas iguais, elas não nasceram iguais. Longe disso! Algumas nasceram com colheres de prata na boca; outras com uma enxada e uma pá ao seu lado. Em sua encíclica sobre o trabalho, o Papa Leão XIII mostrou que a sociedade sempre foi e sempre será estratificada. Deus assim o quer, como fica evidente pelo fato de que “entre a humanidade, existem diferenças das mais importantes: pessoas diferem em capacidade, habilidade, saúde, força. A renda desigual é resultado da condição desigual.”.

Mas repare bem que para alcançar seu fim último, para voltar ao Deus íntegro e santo, cada ser humano tem sido generosamente dotado pelo seu Criador. Nenhum homem tem margem para reclamações. Você pode não ter sido dotado de dons o suficiente para dominar o mundo, mas você tem mais do que o suficiente para dominar o seu eu pecaminoso – o que é, claramente, a única conquista que importa. Na eternidade, você não será julgado pela produtividade, mas somente pela sua semelhança com Cristo. Portanto, é essencial que você aprenda como crescer em semelhança com Cristo no trabalho, já que você precisa trabalhar. É a lei da vida dada por Deus.

O trabalho é parte do plano de Deus para os homens. Mas Deus é Nosso Pai, e Deus é toda bondade. Por isso, as virtudes de trabalho que Ele lhe designou devem ser para sua felicidade.

O trabalho é sagrado 

O segundo passo é fácil. Se o trabalho é vontade de Deus, ele deve ser santificante; pois, em última análise, a santidade é fazer somente a vontade de Deus. Portanto, o trabalho é algo sagrado; é algo “sacramental” – um sinal exterior que pode emanar graças. Assim, você pode ir para o trabalho pela mesma razão pela qual você vai à igreja adorar a Deus! O trabalho é algo religioso. Ele é sagrado.

Essa visão, claramente, é a antítese da maneira com que o homem moderno concebe o trabalho. Ele o exalta, mas só por uma completa inversão de valores e fatos. A pessoa que produz bens materiais é colocada bem abaixo dos bens que ela mesma ajuda a produzir, e isso é completamente desumano. O Papa Pio XI expôs essa situação no seu Quadragesimo Anno, dizendo, “Que tais são hoje as condições de vida social e econômica, que se torna muito difícil a uma grande multidão de homens ganharem o único necessário, a salvação eterna.”. Mas você pode combater essas condições e superar esta real dificuldade. Tudo que você precisa fazer é pensar com a mente de Cristo e de acordo com a vontade de Deus; daí você irá para o trabalho com o mesmo propósito que vai à Igreja.

Isso é possível? Bem, você é o que você pensa. Um homem é a sua mente. Quais são suas motivações para ir à igreja? O mesmo pode ser feito para ir trabalhar, porque, primeiro, é vontade de Deus. Por isso, você pode fazê-lo um ato de obediência a seu Pai. Fé, esperança e caridade já estarão presentes nesse único ato e pensamento. Além disso, como você sabe, o trabalho foi a primeira penitência imposta a um pecador, e você pode torná-lo um ato de reparação pelos seus pecados e os pecados do mundo inteiro. Você pode pedir por misericórdia a Deus por todos os que trabalham duro e assim cumprir aqueles 2 mandamentos de amor a Deus e ao próximo, os quais Cristo disse ser tudo que é preciso ao homem.

Já parou para pensar que, fazendo de você um trabalhador, Deus lhe deu uma partilha na providência universal, pela qual Ele governa a raça humana e nos atos pelos quais Ele sustenta o mundo? Se você é um fazendeiro, você bem sabe que trabalha de mãos dadas com Deus na produção da comida para o corpo do homem e, assim, indiretamente, da sua alma. As multiplicações dos pães e peixes, ditas duas vezes no Novo Testamento, foram realmente acontecimentos admiráveis. No entanto, Santo Agostinho está certo em gozar daqueles que se maravilham, quando ele aponta as poucas sementes que são plantadas na terra e os milhões que são alimentados com suas colheitas. Ele recorda que este milagre anual é devido a Deus, assim como as multiplicações lidas nos Evangelhos.

Mas a providência de Deus não termina nos campos. Ele comanda o processo totalmente, desde a semeadura das sementes para o crescimento, a colheita, depois a debulha, a moagem e a comercialização. Ele tem a sua mão também no pão que é colocado na sua mesa todos os dias. Então, de toda a verdade, cada ser humano que ajuda nesse processo está de fato trabalhando de mãos dadas com Deus.

Essa confiança traz o Céu para bem pertinho. Ameixas podem crescer na Califórnia, batatas em Idaho e o milho em Kentucky. Mas nenhuma dessas mercadorias será servida em qualquer mesa a quilômetros de distância, se todos os tipos de homens e mulheres não cooperassem com Deus na produção, processamento, preservação, embarque, venda e preparação destas. Então todos, do produtor ao garoto que cola os rótulos até a dona de casa ou o chefe contratado, são ajudantes de Deus – para que você possa ter uma refeição.

Visto desta perspectiva, como o trabalho pode ser outra coisa além de um ato de adoração? Desde a queda de Adão, o trabalho devia ser algo sagrado! Para que possa ser ofertado a Deus em ação de graças pelo perdão que Ele estendeu ao pecador, em expiação ao pecado cometido, em pedido para que não haja mais quedas, mas sim uma crescente adoração à vontade de Deus e Sua Providência. E esses quatro pontos são os quatro pontos da Santa Missa. Consequentemente, seu trabalho pode ser, e deve ser, eucarístico: sacrifício e sacramento.

Somente completos pagãos podem considerar o trabalho uma servidão. No Império Romano, antes de Cristo e do Cristianismo, os escravos faziam todo o trabalho. A então chamada “classe culta” considerou abaixo da sua dignidade o ato de labutar. Mas, desde que o Filho de Deus veio como o Carpinteiro de Nazaré, nenhuma pessoa verdadeiramente culta pode olhar para o trabalho – duro, manual – como algo menos que enobrecedor, menos que divino.

O Concílio de Trento tem ensinado que a Paixão e morte de Cristo foram os principais meios que Ele usou para redimir a humanidade. Esta parte explícita do dogma te ensina implicitamente que não foi apenas no Calvário que Cristo nos redimiu. Em outras palavras, quando Jesus estava em Nazaré, trabalhando na madeira, Ele estava redimindo a humanidade tão verdadeiramente como quando Ele estava no Calvário pregado ao madeiro. Isso te mostra que quando as mãos de Jesus seguraram uma plaina ou uma serra, Ele estava fazendo a vontade de Seu Pai e assim tornando a salvação alcançável a você, tão verdadeiramente como quando estas mesmas mãos seguraram pregos e foram seguradas por eles! O Filho de Deus estava redimindo os homens no banco de carpinteiro, na humildade de Nazaré, tão certo como quando Ele era seguido por multidões que o tomariam e o fariam rei – tão certo como quando Ele era seguido por outra multidão que o tomou, o ridicularizou e o crucificou por ser Rei!

Nota do Editor: este artigo foi adaptado de um capítulo do livro “Spiritual Secrets of a Trappist Monk”, de Fr. M. Raymond.

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Autor: Fr. M. Raymond. O.C.S.O

Fr. M. Raymond (1903-1990) foi um monge trapista no Mosteiro Nossa Senhora do Getsêmani em Kentucky. Ele escreveu extensivamente em sua experiência como um monge e especialmente sobre a dignidade de cada indivíduo em sua vida cotidiana. Sua correspondência e influência incluiu muitos grande escritores espirituais do século passado.

Fonte: Catholic Exchange

Traduzido por Gabriel Dias – Membro da Rede de Missão do YOUCAT BRASIL, como Voluntário no Núcleo de Tradução e atualmente também participa do Grupo de Estudo YOUCAT DATING em Brasília – DF.

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