A crise de sentido na modernidade
A crise de sentido na modernidade

Em meio a tantas expressões que causam confusões na sociedade atual, a palavra “modernidade” produz desde brilhos no olhar a grandes dúvidas e desconfianças. As diversas conquistas no campo tecnológico – que conferem poder e autonomia –, na economia ou nas lutas sociais em busca da tão desejada e mal compreendida liberdade fazem desse confuso termo um sinônimo de transformações e avanços – um tempo de glória, no qual a humanidade evoluiu.

De encontro a esse suspiro triunfante, é paradoxal a relação entre muitas dessas conquistas adquiridas e as constatações feitas, desde noticiários à própria experiência cotidiana. A busca inconsequente por riquezas e poder, as abomináveis tragédias humanas do século XX, a insegurança frente a uma sociedade descontrolada pelo egoísmo e pela busca por prazer, entre tantas outras graves ocorrências – que parecem não mais surpreender – passam a sensação de que “o mundo enlouqueceu” e de que o ser humano nunca esteve tão problemático. Ao invés de homens fortalecidos pelos avanços técnicos, encontra-se diariamente a fragilidade, a frustração e a imaturidade para lidar com as dificuldades.

Ao se observar consultórios abarrotados de pessoas com neuroses e depressão, escritórios com homens esgotados pelo peso das cobranças, pessoas solitárias que se esqueceram de si mesmas e dos demais ou aquelas que desejam viver uma vida que não lhe é própria, pergunta-se: onde está a promessa de conquista do mundo feita pela ciência moderna? Os desejos de liberdade e de uma vida cômoda e segura têm se transformado em uma profunda e solitária prisão, em que o sonho de controlar a natureza se modificou no domínio do próprio homem.

A humanidade prometida pelas recentes revoluções – sociais e científicas –, a qual busca conhecimento pelo simples poder[1], tem se revelado cada vez mais impotente diante das próprias invenções. A cada cura encontrada por esse “super-homem” sedento por imortalidade, novas doenças espalhadas pela sociedade. A ausência de rumo é tamanha que as tentativas desesperadoras de encontrar uma direção colocam em perigo toda a humanidade, como expressado por G. K. Chesterton:

O homem que mata um homem, mata um homem; o homem que se mata, mata todos os homens[2].

Não se trata mais de um conhecimento reservado a intelectuais, nem mesmo de um estudo particular. Refere-se aqui a uma evidência, notada por qualquer ser humano capaz de interromper sua laboriosa rotina em troca de um silêncio observador. Diante de tamanha discrepância entre a percepção da realidade e o que os amantes da palavra “modernidade” dizem sobre as notórias conquistas dessa época, fica a seguinte reflexão: o homem moderno é de fato superior e detentor de uma supremacia no saber?

Talvez seja difícil comparar homens de culturas e épocas diferentes; porém, não se pode permanecer impassível frente à realidade decadente, recusando-se a enxergar alguns “progressos da modernidade” como reais atrasos. É preciso aceitar que alguma anormalidade aconteceu, sob o álibi do desenvolvimento. Pode parecer uma afirmação demasiada abstrata, mas é necessário fazê-la: o mundo está em crise, ou melhor, o homem moderno vive crises, justamente por não mais compreender o mundo nem a si mesmo, e por estar “a ponto de dissipar a herança que recebeu”[3]daqueles que se emprenharam por cultivar um honesto e coerente saber.

Ao se falar de “crise de sentido na modernidade” deseja-se refletir sobre a atual ausência de respostas a perguntas elementares, como: Quem sou eu? O que é e para que serve o mundo? Para que viver? Em outras palavras, fala-se de profundidade. Exatamente o que se perdeu quando o ser humano desprezou a possibilidade daquilo que lhe é próprio: intimidade consigo mesmo – o acesso ao núcleo íntimo de si, onde somente a própria pessoa pode entrar –, o que lhe revela ser um quem, e não um simples que[4]. É se lembrar da célebre afirmação atribuída a Sócrates: “uma vida que não é refletida não merece ser vivida”, em que a busca do porquê das coisas se torna uma atividade própria do homem.

É bastante questionador que a geração filha do cientificismo matemático-experimental não consiga perceber tamanhas evidências. Por outro lado, é fácil compreender, tendo em vista o amor ao relativismo, em que cada um é o referencial de si, ou seja, “para mim” é bom ou ruim, verdade ou mentira. Ademais, percebe-se, também, não somente uma relativização de valores, mas uma completa aniquilação, alcançando um certo niilismo teórico, em que se vive uma “situação de desnorteamento provocado pela falta de referências tradicionais, ou seja, dos valores que representavam uma resposta aos porquês”[5], e um consequente “ceticismo radical do homem frente à possibilidade de conhecer a verdade”[6]. Parece que ter virado as costas para a beleza, a bondade e a verdade trouxe uma grave crise, em que o sentido de tudo é não ter sentido em nada.

Na época do acaso e do desejo de se fazer o que quiser, não se pode sequer imaginar que tudo gire ao redor de uma finalidade própria. O que se responder, então, àquelas pessoas que possuem um anseio tão grande pelo desconhecido, que nem mesmo a última tecnologia e os prazeres mais intensos a preenchem mais? O que se dizer a pais de família que, diante de tantas novidades no mundo, não sabem mais o que é o indispensável para seus filhos? Nem mesmo têm conseguido testemunhar firmeza e convicção em relação a bons ideais, a fim de mostrar que a vida vale a pena ser vivida, ao ponto de morrer pelos valores cultivados.

Diversas são as especulações sobre as causas do espetáculo oferecido pelo mundo moderno, mas a impossibilidade de transcender a experiência material e a queda do conhecimento especulativo frente ao saber prático perecem ser as mais satisfatórias. Assim, o ser humano deixou de ter sentido para si mesmo, pois entrou em crise com sua própria racionalidade. Tornou-se incapaz de reconhecer que existe em um modo de ser diferente de uma mesa, passando a se relacionar de forma doentia com essa mesma mesa e, consequentemente, com o mundo inteiro. Caiu por terra o olhar que admira e se espanta frente à realidade – “desde perplexidades óbvias a questões também acerca das grandes matérias”[7]–, em troca de uma morbidez e de uma passividade nocivas.

Após a leitura dessa reflexão, o leitor talvez se questione sobre a possibilidade de se fazer um caminho de volta. É preciso encontrar sentido na própria crise de sentido, encarando esses tempos como um momento de decisão. As crises e anomalias do mundo moderno revelam a necessidade de tratamento, como relatado, também, pelo psicólogo Viktor Frankl ao testemunhar seus dias nos campos de concentração:

“Nossa geração é realista porque chegamos a conhecer o ser humano como ele de fato é. Afinal, ele é aquele ser que inventou as câmaras de gás de Auschwitz; mas ele é também aquele ser que entrou naquelas câmaras de gás de cabeça erguida, tendo nos lábios o Pai-nosso ou o Shemá Ysrael”[8]

O homem que se acostumou aos discursos de desespero e de insegurança precisa agora de palavras de esperança. E não uma espera qualquer, mas que o leve a uma meta segura, a qual seja “tão grande que justifique a canseira do caminho”[9]. Para se reerguer, precisa-se de abertura ao transcendente.

Para finalizar, visto que a atual tendência filosófica e cultural em que o leitor está inserido é chegar ao extremo de se ignorar ou se retirar o sentido, a verdade e a objetividade de tudo, acredita-se que não haverá problema encerrar essa reflexão tomando emprestado um belo verso de Carlos Drummond de Andrade: “E como ficou chato ser moderno. Agora serei eterno!”[10].

__________________

[1] FRAILE, Guillermo. Historia de la Filosofia. Ed. Madrid: BAC, 1991, v. 3, p.264

[2] CHESTERTON, Gilbert Keith. Ortodoxia. Ed. São Paulo: Ecclesiae, 2013, p. 113

[3] WEAVER, Richard Malcolm. As ideias têm consequências. Ed. São Paulo: É Realizações, 2012, p.18

[4] STORK, Ricardo Yepes; ECHEVARRÍA, Javier Aranguren. Fundamentos de antropologia: um ideal de excelência humana. Ed. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio”, 2016, p.65

[5] VOLPI, Franco. O niilismo. Ed. São Paulo: Edições Loyola, 1999, p.8

[6] FAZIO, Mariano. Historia de las ideas contemporâneas: una lectura del processo de secularización. Ed. Madrid: RIALP, 2017, p.312

[7] ARISTÓTELES. Metafísica. Ed. São Paulo: Edipro, 2018, p.45 (982b 14ss)

[8] FRANKL, Viktor Emil. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Ed. Petrópolis: Vozes, 2008, p. 156

[9] BENTO XVI. Carta Encíclica Spe Salvi. n. 1

[10] Extraído do poema “Eterno”: http://www.algumapoesia.com.br/drummond/drummond13.htm

__________________

AUTOR: Luís Felipe Cardoso (2º ano de Filosofia – Seminário Maior Nossa Senhora de Fátima – Arquidiocese de Brasília)

FONTE: Pastores Dabos Vobis

Deixe seu comentário