[Nota: os artigos que compõem essa série foram extraídos e adaptados do livro de Christopher West de 2018, “Teologia do Corpo para Iniciantes: Redescobrindo o Significado da Vida, Amor, Sexo e Gênero”, numa versão revista, atualizada e expandida]


“O celibato pelo Reino indica o homem ressuscitado, em quem o significado esponsal eterno e absoluto do corpo glorificado será revelado na união com o próprio Deus” (São João Paulo II).

Era uma deslumbrante noite estrelada. Um jovem casal, loucamente apaixonado, adentrou nas estradas para encontrar um local isolado onde pudessem expressar seus desejos amorosos. Ao avistar um campo gramado, estacionaram ao lado da estrada, pegaram um cobertor e se dirigiram ao outro lado da colina.

Mal sabiam eles que estavam na propriedade de uma paróquia rural e um monsenhor idoso, ouvindo algum barulho, olhou pela janela de seus aposentos, perguntou-se sobre o que estaria acontecendo e decidiu ir dar uma pequena “caminhada” enquanto rezava. Os jovens amantes, absortos como estavam um para com o outro, não tinham ideia de que alguém se aproximara, e agora estava de pé na beira do cobertor. Sacudidos de sua paixão por um surpreendente, mas ainda assim educado, “com licença”, ficaram ainda mais surpresos ao verem o colarinho romano. Em vez de repreendê-los, o misterioso homem de preto olhou para o céu e sondou, curioso: “Digam-me, o que é que vocês estão fazendo aqui tem a ver com… as estrelas?”. Após uma longa pausa, ele retornou aos seus aposentos, deixando os perplexos amantes a pensar em sua pergunta1.

São João Paulo II, do seu próprio modo, convida-nos a ponderar sobre a mesma pergunta em suas amplas reflexões acerca do “grande mistério” de nossa criação enquanto masculino e feminino, e o chamado a ambos se tornarem “uma só carne”.

Voltemos à cena do velho monsenhor interrompendo o jovem casal sob as estrelas. É uma imagem e tanto – dois amantes apaixonados e um padre celibatário olhando juntos para os céus. Os amantes remetem ao plano original de Deus para o homem e a mulher, e o padre celibatário aponta para o plano final, quando o Eros encontrará uma superabundante plenitude nas núpcias eternas. Ambos precisam um do outro. O casal precisa do testemunho celibatário para ajudar a direcionar seu amor em direção às estrelas, e aqueles que são celibatários consagrados precisam do amor do homem e da mulher para mantê-los firmes no significado esponsal de seus próprios corpos.

Nessa exploração na Teologia do Corpo (TdC), veremos claramente como ambas as vocações conferem uma “resposta completa”, diz-nos João Paulo II, à “questão acerca de o que significa ‘ser um corpo’, isto é, acerca do significado da masculinidade e da feminilidade, de ser… um homem ou uma mulher (TdC 85,9).

O Significado de Ser Humano

Nós aprendemos, nos três últimos capítulos do livro “Teologia do Corpo para Iniciantes”, acerca de nossa origem, história e destino, a fim de responder à pergunta “O que significa ser humano?”. Então, o que significa? Resumidamente, aprendemos que ser humano significa ser chamado à comunhão – comunhão com Deus e uns com os outros num êxtase e numa felicidade que nunca terminarão. Isso significa que “estamos em meio a uma história de amor”, diz o Papa Francisco, “cada um de nós está ligado nessa cadeia de amor. E se não entendermos isso, não entenderemos nada do que é a Igreja” (22 de abril de 2013).

Também aprendemos que nossos corpos contam essa história de amor, que esse chamado à comunhão com Deus e com toda a humanidade está estampado justamente nos nossos corpos enquanto masculino e feminino. O Eros foi nos dado por Deus precisamente para nos levar ao matrimônio eterno de Cristo com a Igreja. O que geralmente é apontado como se fosse cristianismo – uma lista de regras opressivas focadas em esmagar o Eros – não poderia estar mais distante do que o cristianismo realmente é. É um convite para a satisfação plena do Eros em uma eterna comunhão, muito além de nossa mais fértil imaginação.

Quando percebemos quem realmente somos enquanto homem e mulher, também percebemos como devemos viver. Percebemos que o amor é “a vocação inata e fundamental de todo ser humano”, e que há “duas maneiras específicas de realizar a vocação humana ao amor em sua totalidade”: o matrimônio e a virgindade ou o celibato. Cada um, em sua respectiva forma, é uma concretização da verdade mais profunda do homem, do seu “ser a imagem de Deus” (Familiaris Consortio, 11).

Os capítulos subsequentes são dedicados ao sacramento do matrimônio, e este capítulo disporá sobre a vida celibatária2. São João Paulo II começa por aqui porque, como veremos, não podemos saber que o matrimônio é um sacramento a menos que primeiro entendamos o celibato cristão. Este capítulo também será importante para aqueles que estão solteiros e prefeririam não estar. Como observou João Paulo II, uma adequada compreensão do celibato cristão pode “iluminar e ajudar aqueles que, por razoes alheias à sua própria vontade, não se pode casar e, então, aceitou a situação em espírito de serviço” (FC 16).

Um crescente número de homens e mulheres estão solteiros e desejariam muito não estar. Tenho um profundo respeito por esse anseio do coração por um esposo. Sei quão difícil isso pode ser, tanto por causa de minhas experiências pessoas, quanto por causa da honra de ter tocado no testemunho de muitos solteiros a longo dos anos. Todos nós experimentamos aquela dor da solidão e desejamos que ela seja preenchida. Contudo, esse anseio “não é finalmente e completamente satisfeito simplesmente com a união com outro ser humano”, como João Paulo II corretamente observou (referência do livro Amor e Responsabilidade). Na verdade, se o Eros é um apelo do nosso coração pelo infinito, então o matrimônio que realmente desejamos é aquele a que já fomos prometidos: as núpcias do Cordeiro.

Não importa se somos solteiros, casados ou celibatários consagrados: fixar nosso olhar na união eterna é a única esperança que pode, seguramente, fazer com que passemos pelos sofrimentos inevitáveis e pelas lutas dessa vida. “Essa visão tornar-te-á radiante; teu coração palpitará e se dilatará” (Is 60, 5). Nunca mais você terá fome; nunca mais terá sede. Porque o Noivo será seu pastor e o levará às fontes das águas vivas, e enxugará toda lágrima de seus olhos (confira Ap 7, 16-17). Testemunhar essa viva esperança é a própria essência do celibato cristão.

Eunucos pelo Reino

Quando Jesus restaurou o matrimônio de acordo com o plano original de Deus, seus discípulos (como muitos fazem, hoje em dia) concluíram que era melhor não se casar (confira Mt 19, 10). Em resposta a essa controvérsia, Jesus levou a discussão a um plano completamente diferente: “Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus” (Mt 19, 12).

Eunuco é alguém fisicamente incapaz de ter relações sexuais. Na tradição cristã, um eunuco “por causa do Céu” é alguém que livremente renuncia às relações sexuais em antecipação àquele estado em que homens e mulheres “nem se casam, nem se dão em casamento”. O celibato pelo Reino, assim, “é sinal de que o corpo, cujo fim não é túmulo, é destinado à glorificação”. É um “testemunho entre os homens, que antecipa a futura ressurreição” (TdC 75, 1). Em certo sentido, o homem e a mulher celibatários ultrapassam a dimensão da história – enquanto vivem em meio da dimensão da história – e proclamam ao mundo que “o Reino de Deus está entre nós”; o matrimônio pleno já chegou.

O celibato cristão, dessa forma, não é uma rejeição da sexualidade. Ele nos aponta para o definitivo propósito e significado da sexualidade. “Por essa razão… os dois se tornam uma só carne”. Qual razão é esta, que São Paulo dá? Homem e mulher se tornam uma só carne como sinal do “sacramento” da eterna união de Cristo com a Igreja (confira Ef 5, 31-32). Aqueles que vivem o celibato por causa do Reino abrem mão do sacramento do matrimônio em antecipação à realidade celestial, o matrimônio do Cordeiro. Se “não é bom que o homem esteja só”, o celibato cristão revela que a satisfação definitiva para solidão é encontrada somente na união com Deus. De certo modo, a pessoa celibatária escolhe permanecer na dor da solidão nessa vida a fim de devotar todas as suas aspirações à única união que pode satisfazer.

A palavra “celibato”, infelizmente, não porta esse profundo significado “esponsal” para as pessoas. É uma palavra negativa, no sentido de que ela afirma o que as pessoas não estão fazendo. “Eunuco” pode ter conotações ainda piores. Talvez seria melhor definir essa vocação em termos daquilo que ela abraça e antecipa, e não daquilo que ela abre mão. Ela abraça e antecipa o casamento celestial. Todas as pessoas, é claro, além de suas vocações particulares, são chamadas a “preparar-se e aperfeiçoar a si mesmas para a união eterna com Deus”, escreveu João Paulo II. O celibato cristão, enquanto “doação de si feita por uma pessoa casada com o próprio Deus, expressamente antecipa essa união eterna com Deus e nos aponta o caminho para ela” (AR, p. 255).

O celibato deve ser livremente escolhido

Uma pesquisa que recentemente circulou entre os padres perguntou algo do tipo: “O celibato deveria ser uma escolha livre, ou deveria continuar sendo imposto pela Igreja?”. De modo contrário à opinião pública, a Igreja não obriga ninguém a ser celibatário. As palavras de Cristo (“há eunucos que se fizeram assim”) claramente indica a importância da escolha pessoal nessa vocação (confira TdC 74, 1). Se alguém fosse obrigado a viver o celibato, não seria algo mais legítimo do que se alguém fosse obrigado a se casar.

Tendemos a esquecer que, na Igreja Latina, o celibato masculino é uma vocação, que não necessariamente implica no sacerdócio. As Igrejas Católica e Ortodoxa do Ocidente não só têm padres validamente casados, como também têm vibrantes fraternidades celibatárias não ordenadas (elas também existem no oriente, mas não de modo tão proeminente). Como indica o Catecismo, a Igreja Latina geralmente escolhe seus padres entre aqueles homens de fé que escolheram o celibato como sua vocação de vida (confira o Catecismo da Igreja Católica, nº 1579). Isso parece implicar que a escolha pelo celibato vem primeiro. Se um homem católico discerniu pela vocação celibatária, então, dentro de sua vida de celibato, ele também pode discernir a respeito de um chamado ao sacerdócio. Parece que aqueles padres que acreditam que o celibato foi imposto a eles não entenderam essas distinções tão importantes.

Como resultado, muitas pessoas, hoje, estão clamando pelo fim de celibato sacerdotal. Alguns até culpam o próprio celibato pelos problemas sexuais e abusos por parte de alguns clérigos. Como eu escrevi no meu livro “Good News about Sex & Marriage” (GN), “o celibato não causa uma desordem sexual. O pecado causa. Casar-se não cura uma desordem sexual. Cristo cura. Se um padre, ou qualquer outro homem, quiser adentrar num matrimônio com profundas desordens sexuais, ele estaria condenando a sua esposa a ser objeto sexual por toda a vida. O único modo de parar os escândalos sexuais (cometidos por padres ou não) é se as pessoas experienciarem a redenção de sua sexualidade em Cristo (GN, p. 167).

O autêntico celibato cristão testemunha enfaticamente essa redenção. É verdade que, enquanto disciplina da Igreja Latina (e não como doutrina), a prática de reservar a ordenação sacerdotal àqueles homens que escolheram uma vida celibatária poderia mudar. Mas quando nos damos conta de como o celibato nos aponta para o pleno significado do sexo, reconhecemos que nosso mundo precisa do testemunho do celibato cristão agora, mais do que nunca.

 ___________________

1 Meus agradecimentos do Monsenhor Lorenzo Albacete por partilhar uma versão dessa história comigo, quando eu estava na graduação. É baseada num encontro real que aconteceu entre um padre italiano (Monsenhor Giussani) e alguns amantes apaixonados.

2 João Paulo II incluiu suas reflexões sobre o “celibato pelo Reino” no contexto de suas reflexões sobre a ressurreição do corpo. Aqui, eu dei um capítulo próprio para esse assunto.

_______________

Autor: Christopher West

FonteThe Cor Project

Artigo 1: A jubilosa verdade sobre o CELIBATO – Parte 1: A autêntica liberdade sexual é a solução para a crise sexual na Igreja.

Traduzido por Tiago Veronesi Giacone – Membro da Rede de Missão do YOUCAT BRASIL, como Voluntário nos Núcleos de Tradução, Clube de Leitura YOUCAT e também atualmente participante do Grupo de Estudo YOUCAT DATING em Brasília – DF.

Deixe seu comentário