“EU VOS ESCOLHI PARA QUE VADES E DEIS FRUTOS” (Jo 15, 16)

Quando uma pessoa considera o trabalho profissional com uma visão exclusivamente humana, é bem possível que pense que a sua profissão é o resultado de diversas circunstâncias – capacidades e preferências, obrigações, casualidades etc. – que o levaram a realizar determinada tarefa e não outra. Um cristão deve olhar as coisas com mais profundidade e altura, com uma visão sobrenatural que o faça descobrir no trabalho a chamada pessoal de Deus à santidade e ao apostolado.

O que parece uma situação fortuita adquire então sentido de missão, e o cristão começa a estar de um modo novo no mesmo trabalho que já realizava[3]. Não já como quem caiu por acaso nesse lugar, mas sim como quem foi posto ali por Cristo. Eu vos escolhi e vos destinei para que vades e dês fruto, e o vosso fruto permaneça (Jo 15, 16). O local de trabalho, o ambiente profissional em que cada um se encontra, é o seu campo de apostolado, a terra apropriada para semear e cultivar a boa semente de Cristo. A promessa de Jesus não pode falhar: quando se busca a união com Ele no próprio trabalho, sempre há fruto apostólico.

É preciso, no entanto, não se deixar levar pelas aparências. O Senhor adverte também que o Pai celestial poda o que já produz, para que dê mais fruto (Jo 15, 2). Faz assim porque quer abençoar ainda mais os seus filhos. Poda-os para melhorá-los, mesmo que o corte seja doloroso. Muitas vezes, a poda consiste em dificuldades que Ele permite para purificar a alma tirando o que sobra. Em ocasiões, por exemplo, o entusiasmo humano com o próprio trabalho desaparece, e é preciso realizá-lo a contragosto, por um amor sem mais complacência que a de agradar a Deus; noutras vezes é uma dificuldade econômica séria, que talvez Deus permita para continuarmos colocando todos os meios humanos, mas com mais confiança filial nele, como Jesus nos ensina [4], sem nos deixar dominar pela tristeza e angústia quanto ao futuro. Noutras, por fim, trata-se de um fracasso profissional, desses que podem afundar aqueles que trabalham somente com metas humanas e que, por outro lado, elevam sobre a Cruz os que desejam corredimir com Cristo. Muitas vezes, a poda traz consigo um atraso dos frutos, mas é garantia de que haverá mais fruto.

Em todo caso, seria um erro confundir essa situação com aquela a que também se refere Jesus numa parábola: Um homem tinha uma figueira plantada em sua vinha e foi buscar nela fruto e não o encontrou. Então, disse ao vinhateiro: eis que há três anos venho buscar frutos nesta figueira sem encontrá-lo. Portanto, corta-a fora; para quê ainda ocupa terreno em vão? (Lc 13, 6-7). Aqui vemos o caso de quem não dá fruto apostólico em seu trabalho por comodidade e preguiça, por aburguesamento e por pensar só ou principalmente em si mesmo. Então a ausência de fruto não é só aparente. Não existe porque falta generosidade, empenho, sacrifício; em último termo, porque não há boa vontade.

O próprio Cristo nos ensina a distinguir as situações através dos sinais. Aprendei da figueira esta parábola: quando seus ramos estão já tenros e brotam as folhas, sabeis que está próximo o verão (Mt 24, 32). Aqueles que o Senhor poda aparentemente não dão frutos, mas estão cheios de vida. Seu amor a Deus tem outros sinais evidentes como a delicadeza no cuidado dos tempos dedicados à oração, a caridade com todos, o empenho perseverante em empregar os meios humanos e sobrenaturais no apostolado… sinais tão inconfundíveis como os brotos tenros da figueira, mensageiros dos frutos que chegarão a seu tempo. Na realidade, santificam outras almas com a sua tarefa profissional porque “todo o trabalho que for oração, é apostolado[5]. Efetivamente, o trabalho convertido em oração alcança de Deus uma chuva de graças que frutifica em muitos corações.

Os outros, por outro lado, nem produzem fruto nem estão a caminho de produzi-lo. Mas ainda estão vivos e podem mudar, se quiserem. Não lhes faltarão os cuidados que Deus envia, ouvindo as preces de seus amigos, como as do vinhateiro que pedia pela figueira: Senhor, deixa-a ainda este ano; eu cavarei ao seu redor e lhe deitarei adubo. Talvez depois disto dê frutos. Caso contrário, cortá-la-ás (Lc 13, 8-9)Sempre é possível sair da situação de esterilidade apostólica mais ou menos voluntária. Sempre é hora de se converter e dar muito fruto, com a graça divina. “Que a tua vida não seja uma vida estéril. – Sê útil. – Deixa rasto. – Ilumina com o resplendor da tua fé e do teu amor[6]. Só então a atividade profissional se enche de sentido, revela todo o encanto da sua beleza e faz surgir um entusiasmo novo, até então desconhecido. Um entusiasmo como o de São Pedro depois de obedecer o mandato de Jesus – Mar adentro! (Lc 5, 4) – e ouvir, depois da pesca milagrosa, a promessa de um fruto de outro tipo e importância: Não temas; desde agora serás pescador de homens (Lc 5, 10).

Na nossa vida, as duas situações anteriores podem se apresentar, nuns momentos a primeira e noutros a segunda. Externamente talvez se pareçam, pela falta de frutos apostólicos do próprio trabalho profissional, mas não é difícil saber se corresponde a uma ou a outra. Basta sermos sinceros na oração e responder com clareza às seguintes perguntas: ponho todos os meios ao meu alcance para santificar os outros com o trabalho, ou não me preocupo com isso e me conformo com pouco, podendo realmente fazer muito mais? Amo os meus colegas de trabalho? Procuro lhes servir? E, sempre, buscar a ajuda exigente na direção espiritual. Esse é o caminho da santidade e da fecundidade apostólica.

REFERÊNCIAS:


[1] Josemaria Escrivá, Entrevistas com Mons. Josemaria Escrivá, n. 55. Cf. Josemaria Escrivá, É Cristo que passa, ns. 45 e 122.

[2] São Josemaria Escrivá, Carta, 15.10.1948, n. 18, citado por Mons. Javier Echevarría, Carta Pastoral, 2.10.2011, n. 34.

[3] Cf. São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, q. 43, a. 1, c.

[4] Cfr. Mt 6, 31-34.

[5] Josemaria Escrivá, É Cristo que passa, n. 10.

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FONTE: Opus Dei com adaptações dos Missionários YOUCAT

AUTOR: Javier López

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